Durante a abertura da 67ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, realizada neste sábado (20) em Foz do Iguaçu (PR), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia não avançará sem decisão política clara dos líderes europeus. Segundo Lula, a negociação se arrasta há 26 anos e continua bloqueada por disputas internas no bloco europeu, especialmente no setor agrícola.
“Ao cabo de vinte e seis anos de negociações, esperávamos assinar finalmente o acordo. Mas a Europa ainda não se decidiu. Sem vontade política e coragem dos dirigentes, não será possível concluir uma negociação que já dura mais de um quarto de século”, afirmou o presidente, ao relatar conversas recentes com lideranças da Comissão Europeia e do Conselho Europeu.
Lula explicou que a data da cúpula em Foz foi escolhida a pedido da União Europeia, diante da expectativa de que o acordo pudesse ser finalmente assinado neste sábado. No entanto, resistências internas, especialmente da França e, mais recentemente, da Itália, impediram o desfecho. Segundo o presidente, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, teria condicionado sua posição a debates internos sobre subsídios agrícolas.
Apesar do impasse, Lula demonstrou otimismo com a possibilidade de assinatura em janeiro, já sob a presidência pro tempore do Paraguai no Mercosul. “Se houver disposição política, o acordo será firmado. Espero que isso aconteça já no primeiro mês da presidência do Paraguai”, disse.
Integração, segurança e agenda social
Ao fazer um balanço da presidência brasileira do Mercosul, Lula destacou avanços em áreas estratégicas, como o fortalecimento do comércio intrabloco, a transição energética e o combate ao crime organizado transnacional. Durante o semestre, os países aprovaram a Estratégia do Mercosul de Combate ao Crime Organizado Transnacional e criaram uma comissão permanente para coordenar ações conjuntas de segurança.
“Enfraquecer instituições abre espaço para o crime organizado. Segurança pública é dever do Estado e direito do cidadão, independentemente de ideologia”, afirmou o presidente.
Lula também propôs a construção de um pacto regional pelo enfrentamento ao feminicídio e à violência contra as mulheres, lembrando que a América Latina segue como uma das regiões mais letais do mundo para mulheres, segundo dados da Cepal.
Ponte como símbolo político
O presidente relacionou a agenda da cúpula à inauguração, na sexta-feira (19), da Ponte da Integração Brasil–Paraguai, também em Foz do Iguaçu. Para Lula, a obra simboliza o projeto político do Mercosul e a aposta na integração regional. “Em um mundo em que se constroem muros, precisamos lembrar que aqui seguimos construindo pontes”, afirmou.
A cúpula em Foz encerra a presidência pro tempore brasileira e marca a transição do comando do bloco para o Paraguai, que assume com o desafio de destravar o acordo com a União Europeia e aprofundar a integração regional em um cenário internacional marcado por disputas geopolíticas e protecionismo.