Foz do Iguaçu, PR – Quem circula pelo Mercado Público Barrageiro, em Foz do Iguaçu, dificilmente passa sem notar o estande do Doces Kapadókia. As cores, os aromas e a atenção aos detalhes chamam a atenção de turistas e moradores, que encontram no espaço mais do que doces típicos árabes: uma experiência cultural que conecta sabores, histórias familiares e tradições do mundo árabe à diversidade que marca a cidade.

A empresa é familiar e foi representada à reportagem por Hiam Ghazaoui, filha de libaneses, nascida em Foz do Iguaçu, cuja trajetória pessoal se confunde com a história da imigração árabe no município. O Doces Kapadókia completa nove anos de atuação. A primeira loja foi instalada em frente à mesquita, um dos símbolos da presença árabe na cidade. Há exatamente um ano, a marca inaugurou sua segunda unidade com a abertura do Mercado Barrageiro, integrando a primeira fase do espaço e abrindo as portas no mesmo dia da inauguração oficial.

Segundo Hiam, a decisão de ocupar o mercado público foi estratégica e alinhada ao perfil multicultural do local. “Quando soubemos que o mercado público reuniria várias culturas, pensamos: já tem o mineiro, o gaúcho… por que não trazer também a cultura árabe, que faz parte da história de Foz do Iguaçu?”, explica. A receptividade do público, afirma, confirmou a escolha. “As pessoas gostam, apreciam os doces árabes. Isso nos motiva todos os dias.”

As raízes da família Ghazaoui atravessam gerações e oceanos. Os pais de Hiam vieram do Vale do Bekaa, no Líbano, de uma pequena cidade chamada Lala, em busca de trabalho e melhores condições de vida. “Eles vieram sempre em busca de trabalho e de uma vida melhor. Meu pai chegou primeiro ao Brasil e começou como mascate”, relembra.

O início da família no país foi em Telêmaco Borba, no interior do Paraná, onde o pai vendia mercadorias de porta em porta ao lado de um primo. Com o fortalecimento da comunidade árabe em Foz do Iguaçu, a família se mudou para a cidade. Dos oito filhos do casal, sete nasceram em Telêmaco Borba. Hiam já nasceu em Foz, onde a família se estabeleceu definitivamente.

Essa trajetória se reflete diretamente no conceito da Kapadókia. “A ideia sempre foi perpetuar a cultura”, afirma. Embora o nome remeta à Turquia, a escolha tem caráter pessoal. “Capadócia, ou Kapadókia, como se pronuncia lá, é um lugar pelo qual sou apaixonada. O nome me remete a esse encanto, mas a proposta da loja é trazer um pouquinho de cada país árabe.”

No estande do Mercado Barrageiro, o foco está nos doces e em itens artesanais, todos carregados de significado cultural. As receitas atravessam gerações da família e ajudam a contar histórias. Entre os destaques estão a baklava, doce de massa folhada recheada com pistache ou nozes, finalizada com calda e mel de rosas, e o manjar turco, conhecido do público infantil por aparecer no filme As Crônicas de Nárnia.

“Quando contamos essa história, as crianças ficam encantadas e querem provar na hora”, relata Hiam. “Antes de vender, a gente gosta de explicar do que o produto é feito, de onde vem. Vai muito além da venda, é muita história envolvida.”

A proposta educativa exige preparo da equipe, formada por familiares e colaboradores treinados para receber públicos diversos. “Nossa equipe está preparada para explicar, tirar dúvidas e acolher. Quem já convive com a cultura árabe entende rápido, mas quem vem de fora, às vezes chega com uma imagem distorcida. E aí entra o nosso papel.”

O negócio mantém forte caráter familiar. Além de Hiam, trabalham na empresa a irmã Amina, o marido Omar e a mãe, dona Mona, de 81 anos, que se tornou uma figura querida entre os visitantes. “Tem gente que volta só para ver minha mãe. Ela conversa, explica, conta a história. É um patrimônio cultural vivo”, destaca.

O cuidado estético do estande também chama atenção. Mesmo quem não consome os produtos costuma parar para elogiar e registrar imagens do espaço. “As pessoas dizem: ‘que box bonito’. Esse retorno é muito gratificante, mostra que tudo foi feito com carinho”, afirma.

Foto: Kiko Sierick.

Mais do que comercializar doces, a Kapadókia busca desconstruir estereótipos associados à cultura árabe e muçulmana. “Quando se fala em cultura árabe ou muçulmana, muitas vezes surgem associações negativas. Mas hoje os povos estão muito mais integrados. Estamos aqui para mostrar o lado bom: a culinária, a hospitalidade e a nossa gente.”

Muçulmana praticante, Hiam também ressalta o respeito às escolhas individuais. “Usar o véu é uma opção. Eu não uso, mas isso não me torna menos muçulmana. O que importa é o respeito.”

Com a chegada da alta temporada de verão, a expectativa é positiva. A empresa prepara novas receitas e amplia o portfólio para atender turistas e moradores. “Estamos engatinhando ainda, assim como o Mercado Público, que também é um bebê de um ano, mas aprendendo todos os dias”, resume.

Entre sabores, memórias e hospitalidade, o Doces Kapadókia segue contribuindo para contar a história de Foz do Iguaçu, uma cidade construída por diferentes povos, sotaques e culturas que convivem e se complementam. “Somos brasileiros, mas temos um sanguinho árabe. E esse sanguinho é, acima de tudo, hospitaleiro.”

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