Rio de Janeiro – RJ
O Instituto João Goulart encaminhou ao Ministério Público Federal uma denúncia que reforça a suspeita de que o embaixador José Jobim foi assassinado por agentes do regime militar em março de 1979. A motivação do crime seria o conteúdo das memórias que o diplomata estava escrevendo, nas quais prometia detalhar um vultoso esquema de corrupção envolvendo a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai.
José Jobim foi sequestrado em 22 de março de 1979, pouco após declarar em Brasília que possuía informações sobre desvios na obra. Dois dias depois, seu corpo foi encontrado no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Na época, o laudo oficial assinado pelo delegado Rui Dourado alegou suicídio por enforcamento, versão refutada por sua filha, a advogada Lygia Jobim, e por evidências de tortura encontradas no corpo.
De Sete Quedas a Itaipu: o salto nos custos
A trajetória de Jobim cruzou com o destino de Itaipu ainda em 1964, quando foi enviado pelo presidente João Goulart ao Paraguai para negociar a compra de turbinas soviéticas. Com o golpe civil-militar, o projeto original — orçado em US$ 1,3 bilhão de dólares — foi abandonado. Sob o comando dos militares, as negociações com os russos foram canceladas em favor da multinacional Siemens.
O novo projeto de Itaipu viu seu custo saltar para US$ 13 bilhões de dólares, um valor dez vezes superior ao planejado inicialmente. O comando da binacional estava nas mãos do general Costa Cavalcanti, figura da “linha dura” e um dos articuladores do AI-5.
“Foi interrogado sob tortura para dizer quem lhe passava as informações sobre a corrupção em Itaipu. Devem ter achado que sua morte o tornava em vencido”, afirma Lygia Jobim em depoimento emocionado.
A reabertura do caso e a farsa do suicídio
Em 1983, por pressão do então governador Leonel Brizola, as investigações foram reabertas. A promotora Telma Musse Diuana apontou a “dubiedade do laudo” oficial. Um novo inquérito concluiu que as condições da morte eram incompatíveis com o suicídio, registrando o caso como “homicídio por autor desconhecido” antes de ser arquivado em 1985.
Para a família e ativistas de direitos humanos, a morte de Jobim é uma peça chave para entender como a corrupção estrutural da época era protegida pela violência do Estado. A denúncia atual busca retirar o véu de silêncio sobre o caso e identificar os responsáveis pelo crime.
(Documentos Revelados – Do livro: Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?, de Aluízio Palmar, 2004)
Caso José Jobim: corrupção na construção de Itaipu teria motivado assassinato de embaixador