Santiago (Chile) – O cenário político chileno caminha para um dos enfrentamentos mais polarizados desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet. A comunista Jeannette Jara e o extremista de direita José Antonio Kast avançaram ao segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 14 de dezembro.
Com 60% das urnas apuradas neste domingo (16), Jara aparece com 26% dos votos, seguida de Kast, com 24%, diferença de dois pontos que confirma o favoritismo de ambos e consolida a disputa entre projetos de país radicalmente opostos.
A fragmentação da direita marcou o pleito. Além de Kast, concorriam Evelyn Matthei, representante da centro-direita tradicional, e Johannes Kaiser, do Partido Libertário Nacional, ainda mais à direita que Kast. Ambos recusaram participar das primárias oficiais, ao contrário da esquerda que unificou sua candidatura em torno de Jara.
Pesquisas indicam que, somados, os diferentes blocos da direita superam 50% das intenções de voto no Chile, enquanto Jara não ultrapassa 30%, apontando um segundo turno especialmente desafiador para a candidata do governo Boric.
Voto obrigatório muda dinâmica
A eleição teve o retorno do voto obrigatório pela primeira vez desde 1990. No último pleito presidencial, a abstenção ultrapassou 50%. Segundo analistas, a presença dos novos eleitores pode reconfigurar previsões.
“Este é um cenário sem precedentes em uma eleição presidencial”, afirmou o cientista político Guillermo Holzmann, da Universidade de Valparaíso. Para ele, a nova base eleitoral não se guia mais por clivagens clássicas de direita e esquerda, mas por demandas imediatas, sobretudo sobre segurança e bem-estar econômico.
A campanha foi dominada pelo debate sobre crime organizado e imigração, temas que Kast capitaliza com propostas ultraconservadoras e de inspiração trumpista e bukelista.
José Antonio Kast: a ascensão da extrema-direita
Advogado, católico conservador e pai de nove filhos, Kast construiu sua carreira política nos círculos ultradireitistas ligados ao ideólogo Jaime Guzmán, colaborador direto de Pinochet.
O candidato reivindica valores de “ordem e autoridade”, defende publicamente o legado da ditadura militar e rejeita o rótulo de extrema-direita, embora adote discursos alinhados a Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele.
Entre suas promessas estão:
-
construção de valas e barreiras nas fronteiras com Peru e Bolívia;
-
endurecimento das deportações;
-
política de “mão de ferro” similar à de El Salvador;
-
ajuste fiscal de US$ 6 bilhões.
Sua trajetória familiar segue marcada por polêmicas. Documentos dos arquivos da Alemanha apontam que seu pai, Michael Kast, teria sido membro do Partido Nazista — fato que Kast nega ou relativiza.

Jeannette Jara: trajetória operária e pragmatismo político
A candidata de esquerda tem perfil distinto. Nascida em bairro popular de Santiago, filha de mecânico e líder sindical, Jara trabalhou desde jovem e financiou seus estudos com empregos temporários.
Foi líder estudantil nos anos 1990, atuou no funcionalismo público, ganhou notoriedade no movimento sindical e consolidou sua carreira na área de políticas sociais, especialmente no campo previdenciário e trabalhista.
Como ministra do Trabalho no governo Boric, Jara liderou mudanças estruturantes:
-
redução da jornada para 40 horas semanais,
-
aumento do salário mínimo,
-
reformas no sistema previdenciário.
Considerada pragmática, Jara representa o setor mais dialogado e reformista do Partido Comunista. Seu desafio até o segundo turno será ampliar pontes com o centro político e neutralizar o discurso anticomunista da direita.

Chile diante de um divisor de águas
O país volta às urnas em meio a um clima de incertezas e tensões acumuladas desde a crise social de 2019 e das frustrações do processo constitucional. O segundo turno confronta duas visões antagônicas:
uma plataforma progressista e de direitos sociais, representada por Jara,
e um projeto nacional-populista punitivista, defendido por Kast.
A disputa promete mobilizar amplamente a região, especialmente após o avanço de forças de extrema-direita na América Latina.