Lisboa – Pela primeira vez em quase quatro décadas, Portugal decidirá sua presidência em uma segunda volta. O cenário, que evoca a histórica resistência de 1986, coloca frente a frente o socialista António José Seguro e o expoente da extrema-direita lusa, André Ventura. Com 31,15% dos votos no primeiro turno, Seguro consolidou-se como a “casa comum dos democratas”, enquanto Ventura, com 23,39%, tenta consolidar a “trumpização” da política portuguesa através do ódio e da xenofobia.
O resultado do último domingo (18) foi um duro golpe para o governo conservador de Luís Montenegro. Seu candidato, Marques Mendes, amargou um quinto lugar, evidenciando que a direita tradicional foi engolida pela radicalização que ela mesma ajudou a gestar. Agora, o campo progressista entende que o momento não permite vacilações: é hora de unidade total para preservar a Constituição e os serviços públicos.
O perigo da “trumpização” e o voto útil
André Ventura, egresso do populismo midiático e mestre na manipulação de redes sociais, construiu sua candidatura sob slogans racistas e ataques diretos à comunidade imigrante — incluindo a numerosa e preocupada comunidade brasileira. Sua ascensão forçou um movimento de voto útil já no primeiro turno, com eleitores do PCP e do Bloco de Esquerda concentrando forças em Seguro para evitar um desastre maior.
A fragmentação da direita tradicional, dividida entre nomes como Cotrim de Figueiredo e o Almirante Gouveia e Melo, abriu caminho para que Ventura se proclamasse o “ungido” do setor, apesar de ainda não ter o apoio oficial dos partidos conservadores derrotados, que preferiram o silêncio e a neutralidade.

Unidade contra o fascismo: PCP e Bloco declaram apoio
A resposta da esquerda foi imediata e estratégica. Paulo Raimundo, secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), foi enfático ao afirmar que barrar a agenda reacionária de Ventura exige o voto direto em António José Seguro. No mesmo sentido, Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, convocou a militância a votar no socialista “com os olhos bem abertos”, sinalizando que a luta contra o neoliberalismo continuará no dia seguinte à eleição.
Para o atual secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, o que está em jogo é o equilíbrio institucional frente à disrupção autoritária. Seguro baseou sua campanha na defesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS), na valorização de salários e pensões e no enfrentamento à crise de habitação que castiga a juventude.

O fantasma de 1986 e a resistência de Abril
A memória política portuguesa recorda o ano de 1986, quando o neosalazarista Freitas do Amaral quase tomou o poder, sendo impedido por uma frente ampla liderada por Mário Soares. Hoje, o desafio é semelhante: proteger as conquistas da Revolução dos Cravos contra quem tenta precarizar o trabalho e arrochar a vida do povo, como tentou o governo Montenegro na recente reforma trabalhista que gerou a histórica greve geral de 13 de dezembro.
No dia 8 de fevereiro, Portugal não escolhe apenas um presidente; escolhe se quer continuar sendo um país de acolhimento e direitos ou se sucumbirá ao projeto de ódio representado por Ventura. Para os brasileiros residentes em solo luso e para os progressistas de todo o mundo, a vitória de Seguro é a única saída para manter acesa a chama de Abril.
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