CURITIBA | PR – O skate em Curitiba transcende a prática esportiva para se consolidar como um elemento de tensão sociocultural. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Paraná (UFPR) investigou como a modalidade, inicialmente restrita a círculos de elite, transformou-se em uma ferramenta de contracultura que desafiou o planejamento urbano e o conservadorismo da capital entre os anos 1970 e 1990.
A dissertação, de autoria da pesquisadora Joana Caroline Corrêa da Silva, utilizou um extenso acervo de reportagens publicadas entre 1975 e 1999 para reconstruir a trajetória do skate curitibano. O estudo revela que a modalidade encontrou na “cidade modelo” um cenário ambivalente: de um lado, a inovação arquitetônica das primeiras pistas públicas; de outro, o soterramento de espaços e a repressão em áreas nobres.
Origens e o projeto de cidade modelo
A institucionalização do skate no Paraná acompanhou o desejo de vanguarda do município. Entre 1977 e 1978, as inaugurações das pistas do Jardim Ambiental e da Praça do Redentor (Pista do Gaúcho) posicionaram Curitiba como referência nacional. A arquitetura da Pista do Gaúcho, inspirada em registros da revista estadunidense Skateboarder, mimetizava as piscinas de fundo arredondado da Califórnia, reforçando a imagem de modernidade que a gestão pública pretendia projetar.
Vanguarda e polo esportivo
Para o professor André Mendes Capraro, orientador do estudo, essa infraestrutura foi determinante para o cenário esportivo:
“A capital paranaense se tornou um polo do skate”
Democratização do skate gerou tensões urbanas
Apesar do investimento em espaços públicos, o acesso à modalidade nos anos 70 era cerceado pelo fator econômico. Equipamentos importados custavam entre Cr$ 1.000,00 e Cr$ 2.500,00 — um valor que, à época, equiparava-se ao preço de um televisor de 24 polegadas.
A transição para uma prática popular ocorreu entre as décadas de 80 e 90, impulsionada pelo desenvolvimento da indústria nacional e pela fabricação de skates artesanais por jovens de diversas classes sociais. Essa democratização deslocou o skate para a periferia e para os centros urbanos como forma de expressão de contracultura, gerando os primeiros embates com a “ordem urbana” desejada pelas camadas mais ricas da sociedade curitibana.
Atritos em bairros nobres e soterramento de pistas
O estudo detalha episódios em que a presença dos skatistas foi alvo de forte resistência. Em 1999, moradores do bairro Água Verde protestaram contra a instalação de uma pista na Praça Afonso Botelho. No mesmo ano, um caso emblemático de repressão ocorreu na Praça da Ucrânia, no Bigorrilho: a prefeitura realizou o soterramento de uma pista improvisada após queixas de moradores sobre a poluição sonora.
Essa dinâmica forçou o poder público a adotar estratégias de afastamento, priorizando a construção de novas pistas em bairros periféricos para desocupar regiões enobrecidas e pontos turísticos.
Fundação da confederação brasileira em curitiba
Apesar das tensões, a relevância técnica de Curitiba foi ratificada em 1999, quando a cidade sediou a fundação da Confederação Brasileira de Skate (CBSk), unindo federações de vários estados e consolidando a capital paranaense como o primeiro centro administrativo da modalidade no país.
Mulheres enfrentavam machismo nas pistas
A história do skate curitibano também é marcada pela luta contra a misoginia. Atletas como Maria Elaigne Ferreira, vice-campeã nacional em 1976, foram pioneiras que enfrentaram um ambiente majoritariamente masculino e hostil. Segundo Silva, o cerceamento era constante:
“As mulheres eram aceitas, mais até do que em outros esportes. Ao mesmo tempo, havia uma preocupação em dizer: ‘olha, isso não é para mulher pois pode machucar’. Sempre existiu esse cerceamento”
Potencial cultural e acadêmico
Para os pesquisadores da UFPR, o skate criou em torno de suas pistas um ecossistema cultural que envolve batalhas de rima e integração social, elementos que potencializam o esporte para além da competição. O professor Capraro reforça a importância de a universidade reconhecer essas práticas:
“Existem outras modalidades além daquelas com bolas, e a academia tem que se abrir a isso”
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