*Por Victor Evangelista Santos – Opinião
A chamada “Megaoperação” realizada pela segurança pública do Estado do Rio de Janeiro, na madrugada desta terça-feira (28/10), no Complexo do Alemão, em que — até o momento — contabilizam-se 119 mortos (sendo 4 policiais) e 81 presos (números até o atual momentos, podendo haver mais), escancara a face mais brutal da precariedade social, do extermínio da população negra e da consolidação de um Estado de morte.
Conforme o Artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”. No entanto, a realidade exposta nas imagens e relatos desta operação demonstra a irregularidade e a patologia de um sistema que opera de forma hostil e perversa, naturalizando a barbárie. O mal tornou-se banal: vidas humanas são reduzidas a alvos — corpos transformados em estatísticas de guerra ou em instrumentos de promoção salarial, enquanto o Estado mantém acesa a chama do caos entre os miseráveis, preservando, em silêncio, os interesses da burguesia.
A declaração do governador Cláudio Castro, ao afirmar que “as únicas vítimas são os policiais”, reafirma a lógica de distinção entre os que morrem pelo Estado e os que morrem do Estado — uma divisão trágica entre aqueles que, por salários manchados de sangue, defendem a ordem dos “donos do Brasil”, e aqueles que têm seus corpos ceifados para sustentá-la.
Revive-se, assim, o que o grupo Facção Central denunciou em São Paulo – Auschwitz Versão Brasileira (2003):
“Aqui é Facção, direto do campo de extermínio
Testemunha da carnificina embaixo da chuva de tiro
Amor é impossível, diabo guia o destino
Me põe no latrocínio da puta de conversível
Pro porco de farda me abater igual um rato
Trocar meu corpo decapitado por um abono no salário…”
Não há necessidade de filmes de terror quando se vive sob um Estado que transforma o genocídio em rotina e o medo em mercadoria. Enquanto os telejornais lucram com a contagem de corpos, o país se afunda na indiferença. O silêncio colossal dos moradores próximos à Praça da Penha não é apenas medo — é luto e esgotamento coletivo.
O mar de sangue que escorre pelas vielas do Rio de Janeiro é o mesmo que banha as esquinas de um país inteiro — um rio vermelho que atravessa fronteiras simbólicas e revela o verdadeiro retrato do Brasil: uma nação que insiste em negar sua própria humanidade. Nesse cenário de barbárie institucionalizada, a metáfora iconográfica de Francisco de Goya parece ganhar forma viva:

O Estado brasileiro assume o papel de Saturno, devorando lentamente seus próprios filhos, alimentando-se da carne e do desespero de seus cidadãos.
Cada operação policial, cada corpo tombado, cada grito sufocado é mais uma prova de que o monstro pintado por Goya não é apenas uma alegoria do poder, mas uma realidade política concreta, sustentada por um pacto social de indiferença. O Brasil, em sua persistente recusa em reconhecer a vida negra e periférica como vida plena, repete diariamente o gesto canibal de Saturno — um gesto que revela não apenas a violência do Estado, mas também o prazer mórbido de uma sociedade que assiste ao espetáculo da morte como quem muda de canal.
Nesse sentido, o sangue que corre não é apenas um vestígio de violência física, mas o traço simbólico de uma estrutura que naturalizou o genocídio como política pública. O quadro de Goya, pintado em sombras e desespero, torna-se, portanto, um espelho de um país que se alimenta da dor dos seus, perpetuando um ciclo interminável de destruição e silêncio.
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Victor Evangelista Santos é professor de história e editor da Revista Nzinga: Diálogos acadêmicos e lutas sociais dos movimentos negros, periféricos, indígenas e mulheristas.
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