SANTIAGO (CHILE)Salvador Allende foi médico, político e presidente do Chile entre 1970 e 1973. Tornou-se uma figura central da história política do século XX ao ser o primeiro marxista a chegar ao poder por meio das urnas, liderando uma experiência inédita de transição democrática ao socialismo na América Latina.

Influências anarquistas e engajamento ainda no colégio

Os primeiros contatos de Salvador Allende com a militância política ocorreram ainda no período escolar, quando conheceu o anarquista italiano Juan Demarchi, responsável por lhe indicar leituras e despertar seu interesse por ideias sociais e políticas.

Essa influência inicial seria decisiva para sua formação ideológica e para a trajetória que desenvolveria ao longo da vida pública.

Allende estudou Medicina na Universidade do Chile, onde, em 1927, foi eleito presidente do Centro de Alunos. Nesse mesmo período, ingressou na maçonaria, seguindo uma tradição familiar.

A vivência universitária consolidou seu perfil de liderança e aprofundou seu compromisso com causas sociais.

Em 1933, Salvador Allende foi um dos fundadores do Partido Socialista Chileno, legenda à qual permaneceu vinculado até 1946. Em 1937, foi eleito deputado e, dois anos depois, assumiu o cargo de ministro da Saúde, função que exerceu até 1942.

Em 1943, tornou-se dirigente do partido e, em 1945, foi eleito senador, cargo que ocuparia por 25 anos, consolidando-se como uma das principais lideranças da esquerda chilena.

Salvador Allende disputou a presidência do Chile em 1952, 1958 e 1964, sendo derrotado nas três ocasiões. Apesar disso, manteve-se como referência política nacional e líder da esquerda chilena.

A persistência culminou na vitória eleitoral de 1970, quando venceu como candidato da coalizão Unidade Popular.

Allende assumiu a presidência em 3 de novembro de 1970. Seu governo promoveu profundas transformações estruturais, entre elas a nacionalização das minas de cobre, principal riqueza do país, além das minas de carvão e dos serviços de telefonia.

O Estado também ampliou sua intervenção no sistema bancário e avançou na reforma agrária, desapropriando grandes propriedades improdutivas e redistribuindo terras a camponeses.

Desde o início do mandato, Allende defendeu a construção de um “caminho chileno para o socialismo”, baseado na legalidade democrática. Essa proposta enfrentou forte resistência da direita chilena e do governo dos Estados Unidos, que passaram a atuar para desestabilizar o governo.

Em 4 de setembro de 1972, Allende denunciou, em discurso na Organização das Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de interferência nos assuntos internos do Chile.

Ao longo do governo, a situação econômica se deteriorou. Os investimentos privados caíram, o desemprego aumentou e a população passou a protestar em manifestações cada vez mais intensas.

Paralisações no transporte e no comércio, além de atentados contra pontes, oleodutos e sistemas elétricos, agravaram o clima de instabilidade no país.

Apesar da crise, a Unidade Popular obteve 43% dos votos nas eleições parlamentares de 1973, demonstrando ainda significativo apoio popular. Em junho, ocorreu uma tentativa frustrada de golpe de Estado.

Três meses depois, em 11 de setembro de 1973, o governo foi derrubado por um golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet.

Morte de Salvador Allende

Decidido a não entregar o poder, Allende morreu no Palácio de La Moneda, sede do governo chileno. A versão oficial sustenta que ele teria se suicidado com um tiro de fuzil AK-47, presente do líder cubano Fidel Castro.

Há, contudo, quem sustente que ele tenha sido morto por militares. Independentemente da versão, Allende morreu aos 65 anos, tornando-se uma das primeiras vítimas da ditadura militar chilena.

O golpe de 1973 deu início a uma ditadura militar de 17 anos, marcada por repressão política, censura e violações de direitos humanos. Estima-se que ao menos três mil pessoas tenham sido mortas ou desaparecidas durante o regime.

Salvador Allende permanece como símbolo internacional do socialismo democrático, da resistência política e da luta por transformações sociais dentro da legalidade institucional.

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