Nascido em 14 de janeiro de 1892, na cidade de Lippstadt, Martin Niemöller foi um pastor luterano alemão que se tornou mundialmente conhecido por seu discurso antinazista, amplamente adaptado e parafraseado, conhecido no Brasil como “E não sobrou ninguém…”. A partir da década de 1980, o texto passou a circular com força renovada como alerta contra a omissão diante do autoritarismo e da perseguição política.
Filho de um pastor luterano, Niemöller foi educado sob forte influência do patriotismo alemão e da lealdade ao imperador. Após concluir o curso colegial, ingressou na Marinha como soldado de carreira. Durante a Primeira Guerra Mundial, atuou como comandante de submarino e foi condecorado com a Cruz de Ferro. Com o fim da guerra, passou um período em grupos paramilitares e iniciou posteriormente os estudos em Teologia. Em 1931, foi ordenado pastor da Igreja de Santa Ana, em Dahlem, subúrbio de Berlim.
Mesmo após sua formação teológica, Niemöller manteve posições nacionalistas e conservadoras. No entanto, com a ascensão dos nazistas ao poder, em 1933, passou a entrar em conflito com o regime, especialmente diante da tentativa de Adolf Hitler de submeter a Igreja Evangélica ao controle do Estado por meio do movimento dos “Cristãos Germânicos” e da Igreja do Reich, liderada pelo bispo Ludwig Müller.
Embora não estivesse inteiramente livre de preconceitos antissemitas, Niemöller se posicionou firmemente contra a aplicação do chamado “parágrafo ariano” dentro da Igreja e contra a distorção da doutrina bíblica promovida por setores alinhados ao nazismo. Em 1933, ao lado de Dietrich Bonhoeffer, fundou a Pfarrernotbund, ou Liga Pastoral de Emergência, que mais tarde daria origem à Igreja Confessante, um dos principais núcleos de resistência protestante ao regime nazista.
Em 1934, Niemöller ainda acreditava ser possível dialogar com o governo. Durante uma recepção na Chancelaria, em Berlim, confrontou diretamente Adolf Hitler ao recusar a ideia de que a Igreja deveria abdicar de qualquer responsabilidade sobre as questões sociais do povo alemão.
“Ele me estendeu a mão e eu aproveitei a oportunidade. Segurei a sua mão fortemente e disse: ‘Sr. Chanceler, o senhor disse que devemos deixar em suas mãos o povo alemão, mas a responsabilidade pelo nosso povo foi posta na nossa consciência por alguém inteiramente diferente’. Então, ele puxou a sua mão, dirigindo-se ao próximo e não disse mais nenhuma palavra”, relatou Martin Niemöller.
A partir desse episódio, Niemöller passou a ser sistematicamente vigiado pela Gestapo e teve suas pregações proibidas, ordem que se recusou a cumprir. Em 1935, foi preso pela primeira vez e libertado pouco depois. Já em 1937, era considerado o principal porta-voz da resistência protestante alemã, denunciando publicamente a repressão e a instrumentalização da fé cristã pelo regime.
“E quem como eu, que não viu nada a seu lado no ofício religioso vespertino de anteontem, a não ser três jovens policiais da Gestapo, não esquece facilmente o ultraje à Igreja e deseja clamar ‘Senhor, tende piedade’ de forma bem profunda”, afirmou Niemöller em uma de suas pregações.
Em julho de 1937, foi preso novamente. Após meses de prisão preventiva, foi julgado em fevereiro de 1938 pelo Tribunal Especial II de Berlim-Moabit, acusado de ameaçar a paz pública e de fazer declarações hostis ao governo. Embora a pena tenha sido considerada cumprida, Adolf Hitler ordenou sua detenção como “prisioneiro pessoal”, enviando-o a campos de concentração. Niemöller permaneceu preso por mais de sete anos, passando por Sachsenhausen e Dachau, até o fim da Segunda Guerra Mundial.
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