EXU (PE) – Luiz Gonzaga (1912–1989) foi sanfoneiro, cantor e compositor brasileiro. Conhecido como o Rei do Baião, foi o principal responsável por valorizar e difundir os ritmos nordestinos, como o baião, o xote e o xaxado, levando a cultura do sertão para todo o país. Sua música “Asa Branca”, gravada em 3 de março de 1947, em parceria com Humberto Teixeira, tornou-se um verdadeiro hino do Nordeste brasileiro.
Infância e origem no sertão
Família, trabalho na roça e primeiros contatos com a sanfona
Luiz Gonzaga nasceu na Fazenda Caiçara, no município de Exu, no sertão de Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912. Era filho de Januário José dos Santos, o Mestre Januário, sanfoneiro de oito baixos, e de Ana Batista de Jesus. O casal teve oito filhos.
Desde cedo, ajudava o pai na roça, mas se encantava mesmo era com a sanfona. Observando o pai tocar, aprendeu rapidamente e passou a animar festas e eventos da região, conciliando o trabalho rural com pequenos serviços para fazendeiros locais.
Educação e primeira sanfona
Proteção do coronel e descoberta da vocação musical
Luiz Gonzaga contou com a proteção do coronel Manuel Aires de Alencar, que, junto com suas filhas, o ajudou a aprender a ler, escrever e falar corretamente. Aos 13 anos, com dinheiro próprio e um empréstimo do coronel, comprou sua primeira sanfona.
O primeiro pagamento recebido por uma apresentação, em um casamento, confirmou o que já intuía: a música seria seu destino.
A fuga de casa e o Exército
Revolução de 1930 e aprendizado musical
Em 1929, aos 17 anos, após um namoro proibido e uma surra da mãe, Luiz Gonzaga fugiu de casa. A fuga definitiva ocorreu quando saiu para uma festa no Crato (CE), vendeu a sanfona e seguiu para Fortaleza, onde ingressou no Exército em busca de melhores condições de vida.
Com a Revolução de 1930, percorreu diversas regiões do país como corneteiro da tropa. Em 1933, servindo em Minas Gerais, decidiu aprimorar seus conhecimentos musicais, encomendou uma nova sanfona e passou a ter aulas com Domingos Ambrósio, sanfoneiro renomado. Transferido para Ouro Fino (MG), tocou pela primeira vez em um clube.
Chegada ao Rio de Janeiro
Do Mangue aos cabarés da Lapa
Em 1939, Luiz Gonzaga deixou o Exército após nove anos sem contato com a família. Enquanto aguardava retorno a Pernambuco, permaneceu no Rio de Janeiro, onde foi incentivado a tocar profissionalmente.
Passou a tocar em bares do Mangue, nas docas do porto e nas ruas, até ser convidado para os cabarés da Lapa. Seu repertório incluía tangos, fados, valsas e foxtrotes. Nas primeiras tentativas no rádio, em programas de calouros de Silvino Neto e Ari Barroso, recebeu notas baixas.
O baião conquista o rádio
Virada artística e primeiras gravações
Em 1940, estudantes cearenses sugeriram que Luiz tocasse músicas do sertão nordestino. Ao se apresentar com “Vira e Mexe” em um programa de calouros, obteve nota máxima e o primeiro lugar.
Logo depois, foi convidado a acompanhar Genésio Arruda em gravação. Seu desempenho chamou a atenção do diretor artístico da RCA, Ernesto Morais, que o convidou para gravar.
Em 14 de março de 1941, Luiz Gonzaga gravou seus primeiros discos como solista de sanfona, iniciando uma carreira fonográfica sólida.
Parcerias e consolidação artística
Humberto Teixeira e a identidade nordestina
Após algumas parcerias iniciais, Luiz Gonzaga conheceu Humberto Teixeira, advogado cearense, iniciando uma colaboração que durou cinco anos e redefiniu a música brasileira.
Com sanfona, triângulo e zabumba, lançou sucessos como Baião, Asa Branca, Assum Preto, Paraíba e Kalu, com letras simples e profundamente ligadas ao cotidiano do Nordeste.
“Asa Branca”
O hino do sertão nordestino
Gravada em 3 de março de 1947, “Asa Branca” nasceu como uma toada de raízes folclóricas. A canção retrata o sofrimento do povo sertanejo diante da seca e da migração forçada.
A música foi regravada por diversos artistas, como Dominguinhos, Sérgio Reis e Baden Powell, consolidando-se como símbolo nacional.
Retorno ao Nordeste e novas parcerias
Zé Dantas e novos sucessos
Após anos longe de casa, Luiz Gonzaga retornou ao Nordeste, apresentando-se no Recife e, em 1949, levou a família para morar no Rio. Nesse mesmo ano, conheceu o médico e compositor Zé Dantas, dando início a uma nova fase criativa.
Da parceria surgiram músicas como Vem Morena, Cintura Fina e A Volta da Asa Branca.
Reconhecimento nacional e internacional
Palcos do mundo e prêmios
Entre 1948 e 1954, Luiz Gonzaga morou em São Paulo, de onde passou a viajar por todo o Brasil. Em 1980, cantou para o Papa João Paulo II em Fortaleza. Também se apresentou em Paris, a convite da cantora Nazaré Pereira.
Recebeu o Prêmio Nipper de Ouro e dois discos de ouro com o álbum Sanfoneiro Macho.
Vida pessoal e família
Gonzaguinha e relações familiares
Luiz Gonzaga teve um relacionamento com Odaléia Guedes dos Santos, com quem teve Gonzaguinha, em 1945. O menino ficou órfão de mãe aos dois anos.
Em 1948, Gonzaga casou-se com Helena Neves Cavalcanti, com quem criou Gonzaguinha e adotou Rosa Gonzaga.
Doença, morte e homenagens
Despedida do Rei do Baião
Após lutar seis anos contra um câncer de próstata, Luiz Gonzaga morreu em 2 de agosto de 1989, no Recife, após uma parada cardíaca.
Em 2012, no centenário de seu nascimento, recebeu diversas homenagens em todo o país, incluindo o lançamento do filme De Pai Para Filho, sobre sua relação com Gonzaguinha.
Principais sucessos de Luiz Gonzaga
Clássicos da música brasileira
Entre os principais sucessos de Luiz Gonzaga estão: Asa Branca, Assum Preto, A Feira de Caruaru, Respeita Januário, Xote das Meninas, Baião de Dois, No Meu Pé de Serra, A Triste Partida, Riacho do Navio, Último Pau de Arara, entre muitos outros.