Nascido em 1853, Errico Malatesta emergiu de uma abastada família italiana que, entre 1295 e 1528, dominou vasta região, incluindo a província de Rimini e partes de San Marino, Pesaro, Ancona, Forlì e Ravena. Desde a juventude, Malatesta abraçou os ideais republicanos de Giuseppe Mazzini. Aos catorze anos, sua indignação com uma injustiça local o levou a enviar uma carta considerada “insolente e ameaçadora” ao rei Vítor Emanuel II, resultando em sua prisão em 25 de março de 1868. Embora seu pai tenha conseguido sua libertação, dois anos depois ele foi novamente detido em Nápoles por liderar uma manifestação, sendo suspenso por um ano da Universidade de Nápoles, onde estudava medicina.

Em 1871, após a Comuna de Paris, Malatesta abandonou o republicanismo e aderiu ao anarquismo, ingressando na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), também conhecida como Primeira Internacional. Entusiasmado com a efervescência revolucionária da época, ele descreveria a Internacional:

“Todos entregavam para a propaganda tudo o que podiam, e também o que não podiam, pois quando o dinheiro escasseava, vendiam tranquilamente os objetos de suas casas, aceitando com resignação as censuras das respectivas famílias. Pela propaganda esquecíamos o trabalho e os estudos! Enfim, a Revolução estava a ponto de eclodir a qualquer momento e consertaria tudo. Alguns acabavam com frequência na cadeia, todavia, saíam dali com mais energias do que antes: as perseguições não tinham outro efeito senão consolidar nosso entusiasmo. É verdade que as perseguições daquele momento eram fracas comparadas com as que viriam mais tarde. Naquela época, o regime havia saído de uma série de revoluções e as autoridades, rígidas desde o início com os trabalhadores, em particular no campo, mostravam certo respeito pela liberdade na luta política, uma espécie de indisposição parecida com a dos governantes austríacos e a dos Bourbons, que, todavia, se desfez tão rápido quanto se consolidou o regime, e a luta pela independência nacional foi relegada a um segundo plano.”

Nessa fase, Malatesta dedicou-se integralmente à Federação Italiana, colaborando com Carlo Cafiero em jornais como L’Ordine e La Campana de Nápoles. Abandonou seus estudos para dedicar os próximos sessenta anos de sua vida à agitação anarquista. Sua jornada foi marcada por inúmeras prisões e combates não apenas na Itália, mas em países tão diversos como Turquia e Argentina. Ele também participou de insurreições na Bélgica, Espanha e em sua própria nação.

Em 1872, no Congresso de Saint-Imier, em Berna, Malatesta conheceu Bakunin, figura que exerceria profunda influência em seu pensamento e vida. Sobre esse encontro, Malatesta recordou:

“… e assim fui para a Suíça com Cafiero. Encontrava-me enfermo, cuspia sangue e tinha em mente a ideia de que estava tuberculoso… Enquanto atravessava à noite o Gotardo (naquela época ainda não havia o túnel, sendo necessário atravessar a montanha coberta de neve em diligência) resfriei-me e cheguei à casa de Zurique, onde vivia Bakunin, tiritando de febre. Depois das primeiras saudações, Bakunin me preparou uma cama e me convidou – ou melhor, me forçou – a deitar-me, cobriu-me com todos os cobertores que pôde encontrar e insistiu para que eu descansasse e dormisse. Tudo isso com um cuidado e uma ternura maternal que me chegaram diretos ao coração. Quando me encontrava envolto nos cobertores e todos pensavam que eu dormia, ouvi Bakunin dizer coisas admiráveis sobre mim e comentava melancolicamente:‘É uma pena que tenha ficado tão enfermo, em breve o perderemos; não lhe restam sequer seis meses!’”

Malatesta referia-se a Bakunin como “o grande revolucionário, aquele a quem todos nós vemos como nosso pai espiritual”. Ele destacava a capacidade de Bakunin em “comunicar fé, desejo de ação e sacrifício a todos os que tinham a oportunidade de encontrá-lo”, afirmando que ele tinha “o diabo no corpo, e sem dúvida o tinha em seu corpo e sua mente”.

Em 1873, movimentos insurrecionais preparados por Bakunin e Cafiero fracassaram devido à intervenção policial. Malatesta, em Puglia, tentou fugir em uma carroça de feno, mas foi reconhecido e novamente encarcerado na prisão de Trani. No processo de 1875, sua propaganda pela Internacional continuou, e ele foi absolvido. Em seguida, juntou-se a Bakunin e Cafiero na Suíça. No mesmo ano, contra os conselhos de Bakunin, partiu para a Hungria para participar da insurreição de Herzegovina contra os turcos, sendo preso e entregue à polícia italiana.

Juntamente com Carlo Cafiero e outros militantes, Malatesta preparou uma insurreição em Letino, província de Caserta, em 1877, que se tornaria um marco na luta social italiana. Ele e seus companheiros distribuíram armas à população e queimaram arquivos públicos, proclamando o socialismo libertário. Apesar de terem oportunidades de fuga, Malatesta e Cafiero permaneceram no local e foram presos. A ação durou doze dias, resultando na morte de um policial e no ferimento de outro. No julgamento, todos declararam ter disparado contra os policiais, mas o júri os absolveu.

De volta a Nápoles em 1878, Malatesta foi constantemente vigiado pela polícia e utilizou sua herança em propaganda anarquista. Partiu para o Egito, onde foi expulso pelo cônsul italiano para Beirute, que por sua vez o enviou para Esmirna. A bordo de um navio francês, fez amizade com o capitão, que o manteve a bordo até a Itália. Em Livorno, a polícia tentou prendê-lo, mas o capitão se recusou a entregá-lo. Finalmente, Malatesta desembarcou em Marselha e seguiu para Genebra, onde auxiliou Kropotkin na publicação de Le Revolté. Expulso, dirigiu-se à Romênia, depois à França em 1879. De novo expulso, foi para a Bélgica e, por fim, para Londres, onde se estabeleceu, trabalhando como vendedor de sorvetes e bombons antes de abrir uma oficina mecânica.

No Congresso Anarquista de Londres de 1881, defendeu a criação de uma Internacional Anarquista.

Em 1885, exilou-se na Argentina, onde colaborou com os primeiros núcleos anarquistas, desenvolvendo uma ativa propaganda da ideologia e publicando o jornal Questione Sociale.

Retornou à Europa em 1889, passando pela França, mas logo teve de se exilar novamente na Inglaterra.

Em 1913, Malatesta foi à Itália e encontrou-se com Mussolini, então diretor do Avanti, um importante jornal operário. Durante o ano de 1914, dedicou-se a acalmar desavenças pessoais entre os anarquistas, entrou em contato com outras organizações revolucionárias, realizou conferências e encorajou os sindicalistas.

Em Ancona, em 1914, durante manifestações antimilitaristas com a participação de Malatesta, a polícia abriu fogo, e a população tomou controle da cidade. Os sindicatos decretaram greve geral, episódio que ficou conhecido como a “semana vermelha”. Contudo, o exército interveio. Mussolini, embora apoiasse o movimento em palavras, não agiu concretamente. Malatesta fugiu, não sem antes declarar: “Continuaremos a preparar a revolução libertadora que deverá assegurar a todos a justiça, a liberdade e o bem-estar.” Ainda em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, proclamou o Internacionalismo e manifestou-se contra aqueles que defendiam a causa aliada, incluindo seu amigo Kropotkin.

Em 1920, já na Itália, Malatesta iniciou negociações com os socialistas para impulsionar a revolução. A polícia tentou provocar desordens e assassiná-lo. Apesar dos obstáculos legais, seu jornal Umanità Nova alcançou uma tiragem inicial de 50.000 exemplares. Malatesta impulsionou a União Sindicalista Italiana (U.S.I.), de forte influência anarquista. No mesmo ano, em Ancona, eclodiu uma insurreição, e as fábricas foram ocupadas. No entanto, o movimento foi frustrado pelos social-democratas da C.G.T., que negociaram a devolução das fábricas.

Após um encontro anarquista em Bolonha, no qual Malatesta discursou, incidentes eclodiram, resultando em vítimas e feridos entre operários e policiais. Malatesta e a equipe do Umanità Nova foram presos. Em resposta, os protestos se multiplicaram, e atentados fascistas ocorreram. O fascismo, financiado pela burguesia e auxiliado pelo governo, avançava. Em contrapartida, Malatesta incentivou a formação de grupos armados para a autodefesa.

Em julho de 1922, a greve geral foi proclamada pela Aliança do Trabalho – união de diversos sindicatos estimulados por Malatesta. Contudo, os fascistas reprimiram o movimento com força. Em outubro, ocorreu a “marcha sobre Roma”, e, na praça Cavour, fascistas queimaram um retrato de Malatesta. O jornal Umanità Nova foi proibido. Aos sessenta e nove anos, Malatesta retomou sua profissão de eletricista, mas permaneceu sob vigilância constante da polícia.

Em 1924, lançou a revista Pensiero e Volontà. No início, o fascismo permitia a liberdade de imprensa, mas a censura tornou-se cada vez mais severa, culminando na proibição da revista em 1926. A oficina de Malatesta foi destruída pelos fascistas, e ele foi obrigado a sobreviver com a ajuda de camaradas, bem como de sua companheira, Elena Mulli, e da filha dela, Gemma.

Malatesta passou os últimos anos de sua vida na Itália sob o regime fascista. Durante esse período, correspondeu-se com Makhno e criticou veementemente a Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários. Ele foi mantido em prisão domiciliar e faleceu em 22 de julho de 1932. O temor que inspirava às autoridades era tamanho que, após sua morte, seu corpo foi jogado em uma vala anônima, a fim de impedir que seu túmulo se transformasse em um símbolo e ponto de partida para a agitação dos dissidentes.