CAETANÓPOLIS (MG)Clara Nunes nasceu em 12 de agosto de 1942, no então distrito de Cedro, município de Paraopeba, posteriormente rebatizado como Caetanópolis, em Minas Gerais. Tornou-se uma das maiores cantoras da história da música brasileira, referência na valorização do samba, da cultura afro-brasileira e da identidade popular.

Origem familiar e infância

Clara Nunes era a caçula dos sete filhos de Manuel Ferreira de Araújo e Amélia Gonçalves Nunes. Seu pai trabalhava como serrador na fábrica de tecidos Cedro & Cachoeira e era conhecido como Mané Serrador, violeiro e participante das festas de Folia de Reis, influência decisiva em sua formação cultural.

A infância foi marcada pela vida simples, pela música popular e pela religiosidade, elementos que mais tarde se tornariam pilares de sua obra artística.

Orfandade e formação inicial

Em 1944, Clara ficou órfã de pai e, pouco depois, de mãe. Passou a ser criada pela irmã Maria Gonçalves, conhecida como Dindinha, e pelo irmão José, o Zé Chilau.

Participou de aulas de catecismo na matriz da Cruzada Eucarística, onde cantava ladainhas em latim no coro da igreja. Aos 14 anos, ingressou como tecelã na fábrica Cedro & Cachoeira, conciliando trabalho e formação cultural.

Mudança para Belo Horizonte

Dois anos depois, mudou-se para Belo Horizonte, onde passou a morar com a irmã Vicentina e o irmão Joaquim. Trabalhou como tecelã, cursou o normal à noite e, nos fins de semana, participava dos ensaios do Coral Renascença, na igreja do bairro onde residia.

Cresceu ouvindo cantoras como Carmen Costa, Ângela Maria, Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira, mantendo, entretanto, um estilo próprio.

Cinema e aproximação com a Jovem Guarda

Em 1966, Clara interpretou “Amor quando é amor”, de Niquinho e Othon Russo, no filme Na Onda do Iê-Iê-Iê, dirigido por Aurélio Teixeira, aproximando-se do universo da Jovem Guarda.

No ano seguinte, voltou ao cinema com a marcha “Carnaval na Onda”, de José Messias, no filme Carnaval Barra Limpa, de J.B. Tanko, ao lado de artistas como Emilinha Borba, Ângela Maria, Altemar Dutra, Marlene e Dircinha Batista.

Transição definitiva para o samba

Em 1968, fez sua última atuação no cinema no filme Jovens Pra Frente, de Alcino Diniz, interpretando “Não Consigo Te Esquecer”, de Elizabeth. A partir desse momento, afastou-se da Jovem Guarda e passou a dedicar-se integralmente ao samba, influenciada por Ataulpho Alves e Adelzon Alves.

Compôs apenas uma música, “A Flor da Pele”, em parceria com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, que integrou o álbum As Forças da Natureza.

Pesquisa musical e religiosidade

Clara Nunes pesquisou profundamente a música popular brasileira, seus ritmos e folclore. Viajou diversas vezes à África, representando o Brasil, e tornou-se conhecedora das danças e tradições afro-brasileiras.

Converteu-se ao candomblé, incorporando a religiosidade de matriz africana à sua identidade artística, o que se refletiu em repertório, figurino e discurso cultural.

Portela e o Teatro Clara Nunes

Foi uma das cantoras que mais gravou compositores da Portela, escola de samba para a qual torcia. Junto com o marido, Paulo César Pinheiro, fundou o Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro.

Morte e homenagens

Clara Nunes faleceu em 1983, vítima de complicações decorrentes de uma cirurgia de varizes. Foi homenageada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, que rebatizou como Rua Clara Nunes a via onde se localiza a quadra da Portela.

Preservação do acervo e memoriais

Em 1988, sua irmã Maria Gonçalves reuniu peças de vestuário, adereços e objetos pessoais da cantora, criando um espaço de memória em Caetanópolis. Em 2004, foi inaugurado o Memorial Clara Nunes, com mais de 6.100 peças, sob curadoria de familiares e apoio de amigos e do ex-marido Paulo César Pinheiro.

O museu está instalado no antigo Cinema Clube Cedrense, local onde Clara se apresentou pela primeira vez, com acervo coordenado pelo sobrinho Márcio Guima.

Reconhecimento posterior e produções audiovisuais

Em 2012, ano em que se comemoraram os 70 anos de nascimento da cantora, foram inaugurados novos espaços de homenagem, e o biógrafo Vagner Fernandes relançou o livro Clara Nunes – A Guerreira da Utopia.

Em 2018, estreou o documentário Clara Estrela, dirigido por Susanna Lira e Rodrigo Alzuguir, com dublagem da atriz Dira Paes para entrevistas escritas.

Em 2019, a Portela levou à avenida o enredo “Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma sabiá”, em homenagem à trajetória artística de Clara Nunes.

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