Fevereiro é um mês marcante na história da Colômbia, pois celebra tanto o nascimento quanto a morte de Camilo Torres Restrepo, um padre, sociólogo e guerrilheiro que se tornou um ícone na luta pela justiça social. Sua trajetória, que combina a promoção da Teologia da Libertação com a construção de alianças entre cristãos e marxistas, continua a influenciar movimentos sociais em toda a América Latina.

Camilo Torres Restrepo (3 de fevereiro de 1929 – 15 de fevereiro de 1966) foi um revolucionário comunista católico colombiano, padre ordenado e membro do Exército de Libertação Nacional (ELN). Durante sua vida, defendeu a Teologia da Libertação, buscando reconciliar o socialismo revolucionário com o catolicismo romano. Seu ativismo social e disposição para colaborar com marxistas geraram tanto apoio quanto oposição, especialmente do governo colombiano e da própria Igreja.

Como parte do corpo docente da Universidade Nacional da Colômbia, Torres cofundou a Faculdade de Sociologia em 1960, ao lado de Orlando Fals Borda e outros intelectuais como Eduardo Umaña Luna, María Cristina Salazar e Virginia Gutiérrez de Pineda.

Seu envolvimento em movimentos estudantis e políticos lhe rendeu numerosos seguidores, mas também detratores. Diante da crescente pressão para moderar sua postura, Camilo Torres foi perseguido e decidiu se esconder, abandonando sua carreira acadêmica para se juntar à guerrilha na Colômbia. No ELN, atuou como membro de baixa patente, oferecendo apoio espiritual e inspiração a partir de uma perspectiva cristã e comunista. Ele foi morto em seu primeiro combate, quando o ELN emboscou uma patrulha militar colombiana. Após sua morte, tornou-se um mártir oficial do ELN.

Talvez seja mais conhecido pela frase: “Se Jesus estivesse vivo hoje, Ele seria um guerrilheiro”. Ao lado de figuras como Gustavo Gutiérrez e Helder Câmara, Torres é considerado uma das personalidades mais importantes na história da Teologia da Libertação. Ele manteve relações com o colega socialista Luis Villar Borda e com o escritor Gabriel García Márquez. Em 1970, na República Dominicana, um grupo revolucionário formado por clérigos e estudantes universitários foi nomeado CORECATO, em homenagem a Camilo Torres. Em Nova York, a Igreja de São Romero das Américas-UCC lançou o Projeto Camilo Torres em 2009, focando em justiça social e paz para a comunidade de Washington Heights.

Início de Vida e Formação

Jorge Camilo Torres Restrepo nasceu em 3 de fevereiro de 1929, em Bogotá, em uma família abastada da burguesia liberal. Sua mãe, Isabel, contava-lhe histórias sobre o Padre Cuco (Juan de la Cruz Gaviria), um liberal que financiou campanhas contra os conservadores nas guerras civis do século XIX.

Quando tinha apenas dois anos, seus pais o levaram para a Europa, retornando à Colômbia em 1934. Três anos depois, o casal se separou, deixando Camilo e seu irmão Fernando sob os cuidados da mãe. Após ser expulso do tradicional Colegio Mayor de Nuestra Señora del Rosario por críticas a professores, ele completou o ensino médio no Liceo de Cervantes em 1946, onde fez amizade com Luis Villar Borda e Ricardo Samper.

Sua irmã, Gerda Westendorp Restrepo, foi a primeira mulher a estudar medicina na Colômbia, enquanto Fernando seguiu a carreira médica e se estabeleceu nos Estados Unidos. Camilo, por sua vez, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Nacional da Colômbia, onde reencontrou Villar Borda e se envolveu com o jornal universitário La Razón.

Influenciado por padres dominicanos, a ideia de se tornar sacerdote começou a tomar forma. Após terminar seu relacionamento com Teresa Montalvo, ele ingressou no Seminário Conciliar de Bogotá, onde permaneceu por sete anos, despertando interesse pelas questões sociais.

Sacerdócio e Vida Acadêmica

As injustiças sociais chamaram a atenção de Torres, que, junto com Gustavo Pérez, fundou um círculo de estudos sociais que continuou mesmo após sua ordenação como padre em 1954. Em 1955, viajou para a Bélgica para se especializar na Universidade Católica de Louvain. Após enfrentar dificuldades iniciais, fundou a ECISE (Equipo Colombiano de Investigación Socioeconómica) e se conectou com movimentos de resistência.

Em 1957, ele conheceu Marguerite-Marie ‘Guitemie’ Olivieri, que se tornaria sua amiga e secretária. Em 1958, obteve o título de sociólogo, e sua tese, “Una aproximación estadística a la realidad socioeconómica de Bogotá”, foi publicada em 1987.

Enquanto estudava, Torres se interessou pelo marxismo, com a permissão do cardeal Crisanto Luque Sánchez. Sua experiência com o movimento dos padres operários o impactou profundamente, levando-o a vender seu carro e viver modestamente para se conectar com a classe trabalhadora.

Ativismo Político e Guerrilha

Ao retornar à Colômbia em 1959, Torres se tornou capelão auxiliar na Universidade Nacional e ajudou a fundar a primeira faculdade de Sociologia da América Latina. Ele foi membro fundador do Movimento Universitário de Promoção Comunal (MUNIPROC), promovendo a descentralização do poder e o empoderamento das comunidades.

Com a Revolução Cubana em mente, Torres se envolveu na política e na luta social, buscando unir os “não-alinhados” para enfrentar os partidos tradicionais. Sua decisão de se juntar ao ELN em 1966 foi motivada por suas convicções de que a mudança social exigia uma ação direta e radical.

Morte e Legado

Camilo Torres foi morto em combate em 15 de fevereiro de 1966. O Exército Nacional escondeu seu corpo, e um funeral simbólico foi realizado na Universidade Nacional. Sua morte solidificou seu status como mártir e ícone da luta pela justiça social.

Em janeiro de 2016, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, ordenou a busca e exumação de seus restos mortais, um gesto para facilitar as negociações de paz com o ELN. O legado de Camilo Torres continua a inspirar movimentos sociais e a discussão sobre a interseção entre fé e política na América Latina.