LAGUNA | SC – Anita Garibaldi é mundialmente reverenciada como a “Heroína dos Dois Mundos”. No entanto, a sedimentação de seu reconhecimento histórico não foi automática. Se hoje ela é um símbolo transatlântico de coragem e resistência, sua memória enfrentou o desafio de um século XIX profundamente patriarcal, que frequentemente relegava as mulheres a papéis subalternos e apagava suas trajetórias nas frentes de batalha.
Nascida Anita Maria de Jesus Ribeiro em 30 de agosto de 1821, em Laguna, Santa Catarina, a jovem de origem açoriana demonstrou cedo um espírito independente. Sua história é marcada pela quebra de paradigmas: em uma época de mulheres silenciadas, Anita não apenas se tornou guerreira, mas foi ativamente valorizada por seu companheiro, Giuseppe Garibaldi — um fator que pesquisadores atestam ter sido fundamental para que seu nome não fosse esquecido ou subvalorizado.
O encontro com a revolução e a “Mulher-Soldado”
A trajetória de Anita mudou em 1835, com a Revolução Farroupilha. Ao unir-se a Giuseppe Garibaldi, ela aderiu à luta armada, destacando-se em combates em Imbituba e na Tomada de Laguna. Longe de ser uma espectadora, Anita operava canhões e liderava tropas sob fogo inimigo, sendo reconhecida tanto por aliados quanto por adversários como “uma mulher muito forte e destemida”.
Giuseppe, em seus escritos, caracterizou-a como uma “mulher-soldado”, termo que descrevia sua capacidade de incentivar colegas e colocar-se à frente dos embates sem intimidação.
“Segundo relatos presentes principalmente em diários da época, nota-se que ela foi reconhecida em seu tempo por sua coragem e bravura diante dos embates que enfrentava.”
A construção da memória: o papel de Giuseppe Garibaldi
Anita foi pouco lembrada em seu tempo com o matiz de heroína indômita. O resgate de seu papel aconteceu, em grande parte, através das memórias documentadas por Giuseppe Garibaldi após a morte da companheira. Giuseppe rascunhou relatos em 1849, no exílio em Marrocos, que seriam mais tarde enriquecidos pelo escritor Alexandre Dumas em Memórias de Garibaldi.
Esse registro biográfico, embora não isento de subjetividade, foi o que permitiu que a história de Anita sobrevivesse ao imaginário conservador da época. Outras versões, como a publicada pela alemã Elpis Melena, ajudaram a consolidar a imagem da catarinense na Europa.
Fuga heroica e maternidade no campo de batalha
Um dos episódios mais emblemáticos de sua resistência ocorreu na Batalha de Curitibanos. Capturada pelas forças imperiais e grávida de seu primeiro filho, Menotti, Anita conseguiu fugir a cavalo após receber a falsa notícia da morte de Giuseppe. Ela percorreu longas distâncias até reencontrá-lo na cidade de Vacaria (RS), provando que sua participação na guerra não anulava sua vivência como mãe, mas a tornava ainda mais complexa e desafiadora.
Unificação Italiana e o reconhecimento republicano
Em 1847, Anita acompanhou Giuseppe à Europa para as lutas do Risorgimento (unificação italiana). Em 1849, durante os combates em Roma e a subsequente retirada das forças revolucionárias, Anita adoeceu gravemente e faleceu de febre tifoide, aos 27 anos, na província de Ravenna.
O resgate definitivo de Anita no Brasil ocorreu no início do século XX, após a Proclamação da República, na ânsia pela construção de uma identidade nacional brasileira. Foi nesse momento que a figura de Anita foi elevada ao panteão dos heróis da pátria.
“Anita faleceu em 4 de agosto de 1849, aos 27 anos de idade, lutando até o último momento ao lado de seus ideais e de seu companheiro.”
Legado e protagonismo feminino
Hoje, o corpo de Anita repousa no Gianicolo, em Roma, mas seu espírito permanece vivo em Santa Catarina, nos municípios que levam seu nome e nas praças de todo o Brasil. Sua trajetória não é apenas um registro de guerra, mas um manifesto sobre a importância da participação feminina na política e na sociedade.
Em um contexto onde o protagonismo feminino foi inicialmente silenciado, a reafirmação de sua história por meio de registros e, posteriormente, pela pesquisa histórica rigorosa, garante que Anita Garibaldi continue inspirando gerações de mulheres a se engajarem na luta por direitos e justiça social.
Serviço: Onde conhecer mais sobre Anita
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Museu Histórico Anita Garibaldi: Localizado em Laguna (SC), na antiga Casa de Câmara e Cadeia.
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Casa de Anita: Residência onde Anita se vestiu para seu primeiro casamento, em Laguna.
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Monumento ao Gianicolo: Local em Roma onde está o monumento equestre e os restos mortais da heroína.
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Leitura recomendada: Memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas (baseado nos depoimentos de Giuseppe).
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