PORTO VERA CRUZ | RS – Em um dia como hoje, 11 de março, o Brasil e a Argentina relembram um dos episódios mais potentes de resistência popular das Américas: o início da Batalha de M’Bororé. Em 1641, nas águas do Rio Uruguai e nas matas da fronteira entre o atual Rio Grande do Sul e a província de Misiones, um exército de 4.200 indígenas Guarani impôs uma derrota contundente e humilhante às “bandeiras” paulistas. O conflito, que se estendeu por uma semana, não foi apenas uma disputa territorial, mas um levante pela liberdade contra o projeto de escravização que já havia exterminado centenas de milhares de nativos.

Até aquele momento, os bandeirantes operavam com uma brutalidade impune, adentrando os interiores inexplorados da colônia para buscar pedras preciosas e capturar indígenas para uso como mão de obra escrava. Conhecidos pela crueldade extrema, esses sertanistas protagonizaram inúmeros massacres, estupros sistemáticos das mulheres indígenas e atos de selvageria indescritíveis, sendo responsáveis pelo extermínio direto de centenas de milhares de nativos. Estima-se que, apenas entre 1625 e 1641, mais de 600 mil guaranis foram assassinados ou escravizados por essas expedições. Contudo, em M’Bororé, a estratégia mudou: os indígenas, treinados e autorizados pela Coroa Espanhola a portar armas de fogo, deixaram de ser presas para se tornarem um exército organizado.

Engenharia de guerra e resistência fluvial

A expedição invasora, liderada por Jerônimo Pedroso de Barros e Manuel Pérez, contava com 3.500 homens bem armados e 300 embarcações. Do outro lado, sob o comando do cacique Nicolás Ñeenguirú e lideranças como os caciques Abiarú, Mbayroba e Arazay, os guaranis mobilizaram 70 canoas e jangadas, apoiados por uma infantaria de 3.400 combatentes em terra e uma cavalaria de lanceiros.

A batalha foi marcada por uma inventividade bélica impressionante. Os guaranis utilizaram canhões descartáveis fabricados com taquaruçu (bambu-gigante) revestidos de couro e catapultas que lançavam troncos em chamas sobre a frota bandeirante.

Esse é um marco de soberania. Os povos indígenas preferiram a união estratégica com os missionários para barrar a expansão violenta luso-brasileira. A vitória em M’Bororé provou que a dignidade desses povos não seria dobrada pelo terror bandeirante, marcado por massacres e pela violação de seus corpos e territórios.

O cerco e a rendição negada

Após serem derrotados no confronto fluvial inicial no dia 11, os bandeirantes recuaram para a redução abandonada de Acaraguá, onde foram cercados. Durante quatro dias, sofreram um bombardeio constante e uma guerra de atrito que os privou de água e comida. No dia 16 de março, os invasores tentaram enviar uma carta de rendição aos jesuítas, mas o documento foi interceptado e rasgado pelos chefes guaranis.

Não houve trégua para os escravizadores. Os paulistas que tentaram fugir pela mata foram perseguidos por um segundo contingente de 2.000 combatentes. O desfecho em 18 de março foi catastrófico para os invasores: do contingente inicial de 3.500 homens, apenas 120 retornaram vivos para São Paulo.

A vitória em M’Bororé refreou o ímpeto das grandes expedições escravagistas por décadas e permitiu a consolidação das Missões Orientais. Foi este triunfo que pavimentou o caminho para a estruturação de um sistema econômico e social complexo na região, que só seria desmantelado um século depois nas Guerras Guaraníticas, sob o comando de outro herói, Sepé Tiaraju.

Celebrar M’Bororé hoje é reconhecer que a fronteira sul não foi desenhada apenas por tratados europeus, mas pelo sangue e pela coragem dos povos originários que se recusaram a ser escravos e vítimas da barbárie em sua própria terra.