Nascida no sertão pernambucano em 1760, na cidade de Exu, Bárbara Pereira de Alencar foi uma das poucas e mais expressivas vozes femininas na Revolução Pernambucana de 1817. Embora o título de “primeira presa política do Brasil” seja por vezes questionado devido à participação silenciosa de mulheres negras e indígenas em insurreições anteriores, Bárbara tornou-se o símbolo máximo da repressão monárquica contra o pensamento democrático no Nordeste.

Conhecida como Dona Bárbara do Crato, ela consolidou sua vida, casamento e prole no Ceará. Mulher rica, proprietária de terras e escravizados na região do Cariri, Bárbara era o “macho” da família — uma matriarca que gerenciava bens e tomava decisões sem conselhos masculinos, algo raro no século XIX. Sua linhagem é um pilar da história política e cultural: mãe dos revolucionários José Martiniano (pai do escritor José de Alencar) e do lendário Tristão Gonçalves de Alencar (comandante da Confederação do Equador), além de ser parente do ex-governador Miguel Arraes de Alencar.

O caminho da revolução: De Olinda ao Sítio Pau Seco

A consciência política de Bárbara foi pavimentada no Seminário de Olinda, por onde passaram dois de seus filhos. Ali, “contaminados” pelos ideais iluministas de liberdade e igualdade, os padres carmelitas e intelectuais tramavam o fim do absolutismo. Amiga pessoal do Frei Manuel da Arruda Câmara, idealizador do movimento e fundador da primeira loja maçônica do Brasil, Bárbara assumiu para si a missão de cooptar simpatizantes e fundar núcleos republicanos em fazendas e povoados do Ceará.

A insatisfação era geral: com a chegada da corte portuguesa ao Rio em 1808, os impostos sobre o algodão e o açúcar do Nordeste dispararam para custear os luxos da realeza. Em 6 de março de 1817, a revolta explodiu no Recife e, em maio, chegou ao Crato. Durante a missa de domingo, Bárbara e seu filho José Martiniano proclamaram a independência da vila. A experiência republicana durou apenas oito dias no Ceará e 75 dias em Pernambuco, mas deixou marcas eternas.

A caçada e o sacrifício de sangue

A repressão foi rápida e truculenta. Aos 57 anos, Bárbara teve que fugir do seu Sítio Pau Seco para escapar das tropas de Joaquim Pinto Madeira. Ela foi acolhida por Dona Matilde, que em um gesto de lealdade histórica, queimou todos os documentos, atas e proclamações que comprovavam a liderança de Bárbara, salvando-a da forca, mas dificultando as provas históricas de sua atuação.

Ainda assim, a punição foi severa. Acatunada e pendurada no lombo seco de um cavalo, ela percorreu 500 km entre o Crato e Fortaleza. Foi encarcerada em um presídio subterrâneo no Forte de Nossa Senhora da Assunção, onde viveu em meio a fezes e urina, alimentando-se em cochos de madeira como animais. Foram três anos de trabalhos forçados e cárcere, mas Bárbara saiu com uma sede ainda maior de libertação.

A lealdade dos invisíveis e a perda dos filhos

Bárbara era uma mulher de sua época, católica e não abolicionista, exigindo preceitos religiosos de seus escravizados. No entanto, o tratamento dispensado a eles criou laços de fidelidade absoluta. Destaca-se o escravizado Barnabé, que ao ser interceptado pelas tropas reais, decepou a própria língua com os dentes para não trair o paradeiro de sua “sinhá”. Outra escravizada, Brasilina, acompanhou a pé toda a peregrinação de Bárbara até a prisão em Fortaleza.

Anos depois, em 1824, na Confederação do Equador, Bárbara voltou à luta contra o despotismo de D. Pedro I. Ali, sofreu seu maior golpe: perdeu dois filhos. O padre Carlos José dos Santos e Tristão Gonçalves — este último teve a mão direita amputada pelos algozes e o corpo exposto ao sol por um mês como troféu da monarquia.

Debilitada e jurada de morte pelo coronel Pinto Madeira, Bárbara retirou-se na divisa com o Piauí. Em 1833, ao tentar retornar ao Crato para ser madrinha de um casamento, a morte a alcançou aos 72 anos, na casa de um sobrinho, durante uma pausa na viagem.

Bárbara de Alencar não foi apenas uma espectadora; ela foi o “berço da democracia brasileira”. Enquanto seu neto, José de Alencar, omitia a avó em seus escritos por ser defensor de D. Pedro II, a história do Nordeste a imortalizou como a sertaneja que desafiou o Rei para sonhar com uma República Federativa.

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