*Por Victor Evangelista Santos – Opinião
“Por que escrever esta obra? Ninguém me pediu que o fizesse. Muito menos aqueles a quem ela se dirige. E então? Então respondo calmamente que existem imbecis demais neste mundo.” — Frantz Fanon
A sentença de Fanon não é apenas epígrafe: ela me convoca. Reverbera em mim como um chamado visceral que irrompe em mim um dever ético, não solicitado, mas imposto pela própria realidade, pela própria carne, e por essa vida que insiste em nos atravessar. Escrever este artigo não é gesto de vaidade intelectual, tampouco tentativa de iluminar consciências que voluntariamente se mantêm na imbecilidade. Escrevo porque há séculos nos pedem silêncio. Porque negaram a voz aos meus. Escrevo porque o mundo nos nega lugar, legitimidade, humanidade. E, diante desse tipo de negação, falar torna-se forma de sobrevivência.
A experiência de existir como corpo marcado — seja negro, indígena, periférico, deficiente, mulher, LGBTQIAPN+, pobre — constitui, no Brasil, não apenas uma posição social, mas um destino previamente narrado por outros que, mergulhados em seu egocentrismo euro-cristão, insistem em reivindicar-se como o ego no mundo. Somos nomeados antes de existir. Somos lidos antes de falar. Somos interpretados antes de escrever. E, sobretudo, somos situados como o outro — o alter — de uma branquitude que se arrogou o direito de ser medida universal da vida.
E é precisamente por isso que insisto:
A SOCIEDADE BRASILEIRA FOI E É ERGUIDA SOBRE LÁGRIMAS, CALOS E SANGUE NEGRO E INDÍGENAS.
Esta afirmação deveria ser insuportável. Deveria reverberar como ferida aberta. Como angústia permanente em nossas faculdades mentais. Mas tornou-se banal aos ouvidos domesticados pelo conforto racial. Ainda assim, repito — e seguirei repetindo — porque a banalidade é também uma arma de apagamento.
A SOCIEDADE BRASILEIRA FOI E É ERGUIDA SOBRE LÁGRIMAS, CALOS E SANGUE NEGRO E INDÍGENAS.
A SOCIEDADE BRASILEIRA FOI E É ERGUIDA SOBRE LÁGRIMAS, CALOS E SANGUE NEGRO E INDÍGENAS.
A SOCIEDADE BRASILEIRA FOI E É ERGUIDA SOBRE LÁGRIMAS, CALOS E SANGUE NEGRO E INDÍGENAS.
No Brasil, assim como no mundo, o branco tornou-se sinônimo de poder, de humanidade, de pureza, de universal. A branquitude — esse dispositivo estruturante e silencioso — opera como gramática do mundo: define o belo, o justo, o racional, o civilizado. Mas essa gramática é, em si, um projeto político — um humanismo racista, expansionista, genocida. Inverter esses sentidos não é capricho semântico; é gesto revolucionário: é desmantelar a linguagem que sustenta a violência.
E a violência, aqui, nunca foi metáfora. Ela repousa nos becos de nossas memórias e nos becos reais das quebradas deste território chamado Brasil. Locais onde o sangue se mistura a riso; onde a vida se enraíza apesar das perdas; onde a resistência germina no concreto — flores de alvenaria, como diria Sérgio Vaz.
É nesse contexto que retorno a Fanon. A explosão de que ele fala é aquela que emerge dos silenciados, dos subalternizados, dos rebaixados à condição de coisa. Não é convocação à vingança, mas ao ser. À irrupção do humano sufocado. À rasura da ordem que nos quer mortos, dóceis, assimilados ou agradecidos.
Porque a carne que sangra — na polícia que dispara, na “boca” que devora, nos corredores da fome, nos quartos de despejo, nas palafitas, nos trabalhos precarizados, nos hospitais que negligenciam, nos cárceres que transbordam — continua sendo a carne mais barata do mercado. Como canta Elza, a carne negra segue como matéria de sacrifício da nação. Carne que mantém nutrido um monstro sem rosto e sem coração — esteja ele no Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste ou Norte.
Um dia não basta para mensurar meio século de extermínio. Um mês não é capaz de acomodar a densidade histórica de nossas existências. Há vidas que foram costuradas com linhas de ferro, como escreveu Conceição Evaristo. Estas vidas irromperam desviando-se continuamente das engrenagens de morte. Há trajetórias que se formaram apesar do Estado, apesar da violência, apesar do desejo explícito de que não estivéssemos aqui.
E ainda assim, há o olhar que nos fere antes mesmo de nos perceber. Ainda há o desejo predatório em busca de gozo ou de dor, dirigindo-se aos nossos corpos. Ainda há o lugar perverso reservado a nós dentro das casas e das instituições dos novos senhores do engenho. Ainda há o silenciamento de nossas palavras, línguas, memórias, afetos, amores. Ainda há mães enlutadas por balas que nunca se perdem, pois sempre encontram seus alvos. Ainda há violências físicas, psicológicas, simbólicas, políticas, educacionais, institucionais — múltiplas, sofisticadas, persistentes. Ainda há o medo do retorno à miséria planejada. Ainda há a piada sem riso, que leva ao choro, ao negar-se, ao trauma. AINDA HÁ BANZO — aquele luto que nunca se dissolve. Ainda há o medo concreto da morte, e o medo abstrato de não termos o direito ao futuro.
Escrevo porque, diante disso tudo, o silêncio seria uma forma de cumplicidade. Escrevo por aqueles que se foram: João Alberto Silveira Freitas; Marielle Franco; João Pedro Mattos Pinto; Claudia Silva Ferreira; Eduardo de Jesus Ferreira; Evaldo Rosa dos Santos; Douglas Martins Rodrigues; Kauan Alves de Almeida; Miguel Otávio Santana da Silva; Ágatha Vitória Sales Félix; Joel Conceição; Marcus Vinícius da Silva; Heloísa dos Santos Silva; por Rafael, Endryw, Ana Clara, Alice, Kaio; por Victor.
Escrevo pelos meus ancestrais que foram silenciados, apagados, transformados em números. Escrevo pelos que existem e reexistem. Escrevo pelos que estão por vir. Escrevo porque é o que me resta, porque, apesar de tudo, ainda há nós — e estes não serão desfeitos.
Que nossa existência teimosa, cotidiana, coletiva — essa, sim — seja a verdadeira explosão.