Pelo menos 51 palestinos teriam sido mortos enquanto aguardavam por alimentos em Gaza, em incidentes envolvendo tropas israelenses nesta terça-feira, 24 de junho de 2025, segundo a Al Jazeera. O número de vítimas, somado a outros 29 palestinos mortos em circunstâncias distintas, eleva o total de mortes recentes para 80, em um conflito que já superou 56 mil vidas perdidas. Este episódio, descrito como o primeiro transmitido ao vivo globalmente, intensifica as preocupações sobre a situação humanitária na região.

Desde que a distribuição de alimentos da Agência da ONU para os Refugiados (UNRWA) teria sido suspensa e substituída pela ‘Fundação Humanitária de Gaza’ (GHF) – escoltada por tropas israelenses e atuando em poucos locais – após um período de três meses sem entrada significativa de comida e com fome generalizada sob bloqueio, o número de mortos em filas por farinha já ultrapassaria 450, com cerca de 3.500 feridos.

O cenário levou o chefe da UNRWA, Philippe Lazarini, a classificar a “entrega de ajuda” organizada como uma “armadilha mortal“.

A ONU recusou-se a colaborar com a GHF, alegando que a entidade prioriza objetivos militares israelenses em detrimento das necessidades humanitárias e condenando a “militarização” da ajuda. Desde que a GHF assumiu a distribuição de alimentos, relatos de mortes de palestinos em busca de comida tornaram-se uma ocorrência frequente.

Testemunhos e reações de Organizações Humanitárias

O repórter Hani Mahmoud, da Al Jazeera, narrou o incidente na Cidade de Gaza. “As vítimas foram levadas para várias instalações de saúde, incluindo o Hospital al-Shifa [na Cidade de Gaza]”, disse ele. “A ala de emergência se transformou em uma sangueira só e muitos morreram esperando por atendimento médico.” A Al Jazeera exibiu imagens do menino Hamam al-Farani sentado no Hospital Al Shifa, enquanto o corpo de seu pai, Alaa, era preparado para o sepultamento.

Testemunhas relataram à Associated Press (AP) que as forças israelenses abriram fogo quando as pessoas se aproximavam dos caminhões de ajuda. “Foi um massacre”, disse Ahmed Halawa, descrevendo que tanques e drones dispararam “mesmo quando estávamos fugindo”.

A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou um comunicado, denunciando: “Todos os dias, os palestinos enfrentam carnificina em suas tentativas de receber suprimentos da quantidade insuficiente de ajuda que chega a Gaza”. O Dr. Wafaa Abu Nemer, pediatra de MSF, relatou ter visto “pessoas despedaçadas; é um desastre”, afirmando que “buscar comida não deve ser uma sentença de morte”.

Incidentes em Rafah e Khan Younis e críticas à GHF

Cenas semelhantes foram reportadas no Complexo Médico Nasser, em Khan Younis, após relatos de que o exército israelense teria alvejado pessoas que aguardavam por comida na rua al-Tina. Em Rafah, no sul do enclave, 27 pessoas que buscavam ajuda teriam sido mortas a tiros por militares israelenses.

A Quds News Network, de Jerusalém Árabe, registrou que vítimas foram transportadas até mesmo em carroças puxadas por animais após um incidente com mortes perto do centro de distribuição da GHF na área de Al-Shakoush, a noroeste de Rafah.

Na região central de Gaza, imagens divulgadas no Instagram e verificadas pela agência Sanad da Al Jazeera mostraram corpos sendo levados para o Hospital al-Awda, no campo de refugiados de Nuseirat. Fontes médicas relataram que pelo menos 25 pessoas foram mortas em um incidente na rua Salah a-Din, ao sul de Wadi Gaza, e mais de 140 ficaram feridas, 62 delas gravemente, conforme a agência de notícias Associated Press.

Em uma carta publicada na segunda-feira, a Comissão Internacional de Juristas – uma ONG de direitos humanos composta por advogados e juízes – uniu-se a outros 14 grupos para criticar a GHF e exigir “o fim das operações privadas de ajuda humanitária militarizada em Gaza”. Philip Grant, diretor-executivo da ONG TRIAL International, com sede em Genebra, afirmou que o modelo de entrega de ajuda militarizada e privatizada da GHF “viola os princípios humanitários fundamentais”. Ele acrescentou que aqueles que permitiram ou lucraram com as ações da GHF enfrentaram um “risco real de serem processados por cumplicidade em crimes de guerra, incluindo a transferência forçada de civis e a fome de civis como método de guerra”.