FOZ DO IGUAÇU – Um episódio de violência física e ódio religioso chocou Foz do Iguaçu na tarde desta quinta-feira (12). Duas mulheres, naturais do Líbano (40 anos) e da Síria (48 anos), foram hostilizadas e agredidas fisicamente por um homem nas dependências de um shopping center na Avenida Costa e Silva. O agressor, além de proferir ofensas xenofóbicas, arrancou o hijab (véu islâmico) de uma das vítimas e desferiu socos contra ambas.

O caso ocorre em um momento no qual o Brasil vive um cenário crítico: o recorde de feminicídios em 2025 reforça que a violência contra a mulher é alimentada por discursos de ódio. Especialistas e entidades alertam que parte expressiva desses índices no Brasil e no mundo é fomentada pelo avanço da extrema-direita, cujos discursos de figuras como Donald Trump e do ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, legitimam a intolerância e a misoginia.

Neste contexto de sensibilidade global, a escalada do conflito no Oriente Médio e a violência praticada pelo exército sionista de Israel em Gaza contra o povo palestino têm reverberado em uma onda de islamofobia e ataques contra muçulmanos em diversas partes do mundo. Em Foz do Iguaçu, cidade que abriga uma das maiores comunidades árabes da América Latina, o crime acendeu um alerta sobre a importação desse ódio e a vulnerabilidade das mulheres diante da xenofobia.

O crime e a reação popular

Segundo o registro policial, as vítimas faziam compras quando o homem passou a hostilizá-las verbalmente com frases como “volta para o seu país”. O ataque evoluiu para violência física, resultando em escoriações no rosto das mulheres. Populares que presenciaram a cena agiram rapidamente e contiveram o agressor até a chegada da Polícia Militar, por volta das 16h. O homem foi conduzido à delegacia, mas a tipificação inicial do crime como apenas lesão corporal — omitindo a intolerância religiosa e a injúria racial — gerou indignação.

O homem responsável pelo ataque foi identificado como Augusto Cesar Vieira, de 33 anos. Segundo informações apuradas, Vieira já é conhecido pelas autoridades por comportamentos similares: ele possui histórico de intolerância religiosa, tendo inclusive invadido a Mesquita de Foz do Iguaçu em outra ocasião para agredir fiéis. Na delegacia, o acusado alegou fazer uso de medicação controlada, justificativa que será avaliada no curso do inquérito.

A prisão em flagrante foi ratificada pelo Delegado de Plantão na 6ª Subdivisão Policial (SDP) e Augusto Cesar Vieira será submetido a uma audiência de custódia nesta sexta-feira (13). As vítimas compareceram à unidade policial e confirmaram que irão representar criminalmente contra o autor, que além da violência física, praticou um ato considerado extremamente grave ao violar o símbolo religioso das mulheres em público.

Notas de repúdio: OAB e APP-Sindicato/Foz

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – Subseção de Foz do Iguaçu:

“Trata-se de grave violação de direitos humanos configurando violação à integridade física, à dignidade da pessoa humana e à liberdade religiosa. Além da dimensão religiosa, o episódio também expõe a persistência da violência contra as mulheres em nosso país. A OAB/PR, fiel à sua missão constitucional, repudia qualquer ato de agressão física ou simbólica contra mulheres em razão de sua condição de gênero”.

A APP-Sindicato/Foz:

“É inadmissível que em Foz do Iguaçu o ódio e a xenofobia encontrem espaço, embalados pela desinformação e violência propalados por setores da extrema-direita. A agressão carrega um componente duplo: a intolerância religiosa e o machismo. Atitudes como essa são a base de uma realidade alarmante: em 2025, o Brasil atingiu o recorde desolador de feminicídios, com quatro mulheres mortas por dia. A violência física sofrida por elas é o estágio que precede o crime letal”.

Posicionamento da Comunidade Islâmica 

A resposta da comunidade muçulmana, que soma cerca de 20 mil habitantes em Foz, foi imediata. O sheik Mohamad Khalil classificou o ato como uma prática clara de intolerância.

“Trata-se de intolerância religiosa praticada por esse cidadão brasileiro. Defendemos uma posição firme e forte para impedir que esse acontecimento se repita”, afirmou o sheik.

Respostas Institucionais: Prefeitura e Câmara

Nota da Prefeitura de Foz do Iguaçu:

“A Prefeitura manifesta repúdio a qualquer forma de intolerância, discriminação ou violência. Foz do Iguaçu é reconhecida internacionalmente por sua diversidade cultural e étnica. A convivência harmoniosa entre povos é um dos pilares que constroem nossa identidade. Casos dessa natureza devem ser apurados com rigor pelas autoridades competentes, assegurando a aplicação da lei”.

Procuradoria da Mulher da Câmara Municipal:

“O hijab é um símbolo de fé, identidade e autonomia. Qualquer tentativa de constranger, ultrajar ou desrespeitar esse símbolo constitui grave violação de Direitos Humanos e não pode ser tolerada em uma cidade plural e diversa como Foz. Reiteramos a importância da apuração rigorosa dos fatos e da devida responsabilização do agressor”.

Posicionamento do shopping

Em nota, o Cataratas JL Shopping informou que o episódio foi “isolado” e que a equipe de segurança realizou a contenção do indivíduo seguindo os protocolos, acionando a polícia imediatamente. O centro comercial reiterou seu repúdio a qualquer agressão contra mulheres e a toda forma de intolerância.

Até o fechamento desta reportagem, a Polícia Civil não comentou se o enquadramento penal poderá ser revisto para crime de ódio ou intolerância durante o curso do inquérito. As vítimas optaram por não se manifestar, e a defesa do agressor não foi localizada.

 

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