Em uma publicação nas redes sociais, Dmitry Medvedev afirmou: “Todos, até mesmo o ministro da Defesa israelense, com sua declaração em voz alta sobre o destino de Khamenei, devem entender que os ataques a instalações nucleares são extremamente perigosos e podem levar a uma repetição da tragédia de Chernobyl“. A advertência de Medvedev surge após relatos na mídia sobre uma possível decisão dos Estados Unidos de bombardear a instalação nuclear subterrânea iraniana em Fordow, utilizando a maior bomba anti-bunker não nuclear disponível em Washington, a GBU-57, de quase 14 toneladas. A Casa Branca teria estabelecido um prazo de “duas semanas” para a definição.

A menção de Medvedev ao “ministro da Defesa israelense” é uma referência à promessa de eliminação do chefe de Estado iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, que, conforme teria insistido, “não pode continuar existindo”. Isso se soma à declaração do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, de que “sabe” onde Khamenei está e que “por enquanto” não pensa em matá-lo.

Desde 13 de junho, Israel tem sido acusado de bombardear instalações nucleares iranianas – as quais estão sob a mais rígida fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU. A alegação, repetida há 30 anos pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, é que o Irã estaria “prestes” a obter a “bomba atômica”. Relatos indicam que Israel já teria bombardeado as instalações de Natanz, Isfahan e Khondab, além de ser acusado de assassinar líderes militares e cientistas iranianos.

Reações internacionais e riscos de catástrofe

A porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, enfatizou durante a Conferência de São Petersburgo, encerrada na sexta-feira, 20 de junho de 2025, que esses “ataques diários, várias vezes ao dia, contra as instalações civis pacíficas de infraestrutura nuclear, que estão sob controle de inspetores da AIEA” por Israel colocam o mundo a “milímetros do desastre“. Ela ressaltou que, como demonstrado em Chernobyl e Fukushima, a radiação “não precisa de visto nem passaporte, e não reconhece fronteira“.

Anteriormente, Zakharova havia questionado as alegações de Israel de que “tem provas de que o Irã está a um passo de criar armas de destruição em massa”, pretexto utilizado para violar o direito internacional e, em particular, a proibição de ataques a instalações nucleares pacíficas, expressamente determinada no Tratado de Não Proliferação. Ela questionou: “Por que [os israelenses] não podem simplesmente mostrar os documentos?“.

Na quinta-feira, Mark Warner, senador democrata e vice-presidente da Comissão de Inteligência do Senado dos EUA, afirmou que a avaliação das agências de espionagem americanas de março – que indicava que o Irã não está desenvolvendo um programa nuclear militar e não está a dias de obter uma bomba nuclear – teve sua validade reafirmada esta semana. Isso ocorre apesar de Trump ter declarado que “não importa” o que ela diz.

Neste sábado, a Organização de Cooperação Islâmica, que reúne 57 países, está reunida com o objetivo de apoiar o Irã. Na sexta-feira, milhões de iranianos foram às ruas para protestar contra a ação atribuída a Israel, com apoio de Washington, e em defesa da soberania do país.

Ainda na sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, participou de uma sessão de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre a agressão ao seu país. Ele destacou que “nossas instâncias nucleares pacíficas também foram alcançadas, apesar de serem monitoradas completamente pela Agência Internacional de Energia Atômica e apesar do fato de que os ataques a essas instâncias são absolutamente proibidos pela lei internacional“. Ele lembrou que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, a de número 487, aprovada por unanimidade em 1981, já proibia ataques a reatores nucleares, quando Israel bombardeou um reator iraquiano.

Araghchi também se reuniu com os chanceleres do chamado E-3 (França, Reino Unido e Alemanha). No Conselho de Segurança, a China manifestou apoio à declaração conjunta dos ministros das Relações Exteriores de 21 países árabes e islâmicos, que pede um cessar-fogo, a retomada das negociações sobre a questão nuclear iraniana e a busca por uma paz duradoura na região.

Durante a semana, os presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin conversaram por telefone sobre a situação no Oriente Médio e os esforços para uma desescalada.

Ameaças nucleares

Balões de ensaio na mídia, que circularam sobre Trump “avaliando” o uso de uma bomba nuclear “tática” B61-1 contra a instalação de Fordow – devido a supostas dúvidas sobre a eficácia da GBU-57 não nuclear –, levaram a Federação dos Cientistas Americanos, conhecida por seu “Relógio do Juízo Final”, a emitir um alerta. Através de Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear, a federação advertiu que “a precipitação radioativa seria intensa“. Apesar de designada como “tática” por não ser termonuclear (bomba-H), a B61 é 10 vezes mais potente que as bombas usadas contra Hiroshima e Nagasaki.

Eli Clifton, conselheiro sênior do Quincy Institute for Responsible Statecraft, expressou espanto: “Os EUA estão considerando usar uma arma nuclear pela primeira vez desde Hiroshima e Nagasaki, por que nosso Estado cliente assassinou o negociador iraniano e começou uma guerra?“. Em resposta a um repórter sobre isso, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que seria “um desenvolvimento catastrófico, mas há tantas especulações que, de fato, é impossível comentar sobre elas“.

Após os recentes ataques, Israel estaria enfrentando retaliações, com mísseis hipersônicos iranianos supostamente atingindo alvos militares em Tel Aviv, Haifa, Jerusalém Ocidental e Beer Sheva. Esses eventos estariam colocando em xeque os conceitos de “invencibilidade sionista” e do “Iron Dome inexpugnável”, gerando paralisação econômica e obrigando a população a procurar abrigos – uma situação que, segundo críticos, o regime israelense não teria concedido aos palestinos de Gaza.