CURITIBA | PR – O Paraná, estado que sancionou o primeiro Código Estadual da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA) da América Latina, vive um momento de contraste entre a vanguarda jurídica e as carências do dia a dia. Nesta segunda-feira (30), uma sessão solene na Assembleia Legislativa (ALEP) marcou a antecipação do Dia Mundial de Conscientização do Autismo (2 de abril), transformando o Plenário em um palco de cobranças por políticas públicas que saiam do papel e cheguem às salas de aula e aos postos de saúde.

A proponente do evento, deputada Flávia Francischini (SD), pontuou que a visibilidade conquistada nos últimos anos esbarra agora em um teto operacional: a falta de especialistas. Sem neurologistas e psiquiatras em número suficiente na rede pública, o tempo de espera pelo diagnóstico — a chave para o início das terapias — torna-se um inimigo cruel para o desenvolvimento infantil.

Um dos pontos altos do debate foi a quebra de estereótipos de gênero. Tradicionalmente associado ao público masculino (o Censo 2022 aponta 1,4 milhão de homens contra 1 milhão de mulheres com TEA no Brasil), o autismo em meninas e mulheres costuma ser camuflado por habilidades sociais de “masking”.

A psicóloga Lara Frasson, diagnosticada tardiamente, e a psicopedagoga Marina Tissot apresentaram a obra “Olívia”, focada justamente no TEA feminino. O objetivo é combater a invisibilidade que faz com que muitas mulheres passem décadas sem suporte adequado, enfrentando crises sensoriais e emocionais sem compreender a própria condição.

Mães Atípicas

A solenidade também destacou a segurança pública. O Major Murilo Sinque apresentou manuais de atendimento a emergências voltados a pessoas no espectro, treinando as forças de segurança para abordagens que considerem crises sensoriais. Além disso, o foco se voltou para as cuidadoras.

“O autismo não existe só em abril; ele está presente nos 12 meses do ano dentro das nossas casas. Precisamos que essa conscientização seja contínua”, alertou Laura Alvim, diretora do Instituto Anjo Azul, ao descrever o esgotamento físico e financeiro das mães atípicas.

Próximos passos

O Secretário de Estado do Desenvolvimento Social e Família, Rogério Carboni, reforçou a importância do Fundo Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência (FEPcD) para financiar salas sensoriais, mas admitiu que a política estadual ainda está em fase de fortalecimento.

Até quarta-feira (1º), a ALEP recebe a exposição “A Outra Face do Autismo”, com registros do cotidiano familiar. A mostra busca humanizar os números: 1 a cada 36 crianças é autista, segundo o CDC, o que exige que a sociedade se adapte ao indivíduo, e não o contrário.

Obra financiada pela Lei Aldir Blanc prevê estúdio de gravação e biblioteca no Porto Meira.