CURITIBA | PR – A Assembleia Legislativa do Paraná promoveu, nesta terça-feira (17), a audiência pública “Veneno na Água”, que colocou em xeque o modelo agrícola dependente de insumos químicos e seus efeitos nos mananciais que abastecem Curitiba e a Região Metropolitana. O encontro reuniu pesquisadores, juristas e parlamentares para denunciar um cenário alarmante: o Brasil é líder mundial no uso de agrotóxicos, e o Paraná reflete essa dependência que ameaça diretamente a saúde pública.

O deputado Goura (PDT), proponente do debate, destacou que a falta de informação da população mascara um perigo que chega diariamente às torneiras.

É urgente pensarmos em políticas mais restritivas do uso de agrotóxicos. A gente está falando da água que chega à torneira da população. É inadmissível pensar que a gente vai pegar a água para tomar, para cozinhar, e ela conter agrotóxicos. Não faz sentido ter plantios em áreas de mananciais com uso desses produtos. Queremos fortalecer uma agricultura mais ecológica, menos dependente desses produtos, pontuou Goura.

Ameaça ao DNA e risco de câncer

Os dados técnicos apresentados pela toxicologista Márcia Sarpa, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), trouxeram gravidade ao debate. Segundo a especialista, a exposição aos ingredientes ativos utilizados em larga escala no Brasil causa danos celulares profundos.

Nossos estudos indicam que a população exposta sofre diversos efeitos tóxicos sobre o DNA. São danos que, cientificamente, podem levar ao câncer. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer já classificou diversos ingredientes como cancerígenos para seres humanos. Infelizmente, esses produtos ainda são utilizados no Brasil, apesar de proibidos em diversos locais do mundo, resumiu Márcia Sarpa.

Falha na Legislação e Fiscalização

O promotor Daniel Pedro Lourenço, do Ministério Público do Paraná (MPPR), apontou que o problema é, em grande parte, legislativo. Ele revelou que os níveis de substâncias químicas permitidos pelas normas brasileiras chegam a ser 100 vezes superiores aos tolerados na União Europeia.

Por que não vemos isso avançar nas prateleiras dos supermercados? É um problema de legislação. Estávamos desenvolvendo um projeto de análise qualitativa das águas no Paraná e agora vamos incluir a questão dos agrotóxicos. Precisamos de mais fiscalização sobre a venda de produtos proibidos e regulamentar a pulverização, especialmente a aérea, destacou o promotor Daniel Pedro Lourenço.

O deputado Professor Lemos (PT) reforçou que o Paraná possui o maior número de produtores de orgânicos certificados do país, o que prova a viabilidade de um modelo que coloque a vida em primeiro lugar. O debate concluiu pela necessidade de uma coalizão entre universidades, órgãos de fiscalização e o poder público para retirar o veneno da comida e da água dos paranaenses.

Equipes da Tríplice Fronteira já podem se inscrever para o Abril Claquete