São Paulo–SP – O movimento que paralisou a reorganização escolar no estado de São Paulo completou um mês atingindo um estágio que vai além da reivindicação política. Após o recuo do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e a queda do Secretário da Educação, as quase 200 escolas ocupadas tornaram-se laboratórios de um novo modelo pedagógico. Os estudantes agora afirmam que a relação com o ensino mudou definitivamente: eles não querem apenas voltar às aulas, querem mudar a escola.
A experiência culminou em uma “virada cultural” com a presença de artistas, escritores e debates. O que se concretizou não foi apenas um protesto, mas a experimentação de uma gestão compartilhada, onde os próprios alunos assumiram a limpeza, a cozinha e a segurança das unidades, contando com o apoio de vizinhos e voluntários.
O currículo das ocupações e o choque com o modelo tradicional
Durante o período de resistência, os estudantes tiveram acesso a um currículo pouco ortodoxo e transdisciplinar. Voluntários ministraram oficinas e aulas sobre temas ausentes na grade comum:
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Sociedade: Urbanismo, especulação imobiliária e questões indígenas.
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Identidade: Movimento negro e questões de gênero.
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Habilidades: Comunicação não violenta, jornalismo e dança.
Essa vivência gerou um questionamento profundo sobre o método tradicional. “Minha relação com a escola mudou. A gente agora se sente dono dela e não tem volta. Queremos que a escola tradicional seja mais como a escola ocupada”, afirma Gabrielle Menezes, da E.E. Godofredo Furtado.
A estrutura de assembleias coletivas também despertou o desejo de substituir a aula onde o aluno apenas anota em silêncio por um modelo de troca ativa. “Não vamos ficar quietos, literalmente”, pontua a estudante Laura Bueno, de 15 anos.
O impasse político: suspensão ou cancelamento definitivo?
Apesar do anúncio do governo de suspender a reorganização para “aprofundar o diálogo”, o movimento decidiu em assembleia geral manter as ocupações e convocar novos atos na Avenida Paulista. Os secundaristas exigem:
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Cancelamento definitivo do plano de fechamento de 94 escolas.
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Punição para abusos policiais cometidos durante as manifestações.
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Garantia jurídica de que nenhum estudante detido responda a processos.
A reação do Palácio dos Bandeirantes
O governo estadual, por meio de Edson Aparecido (Casa Civil), atribui a manutenção das ocupações a uma suposta “politização” da causa. “Quem quiser fazer luta política, como boa parte já tentou fazer, vai errar”, declarou o secretário, alegando que não há sentido em manter os prédios tomados após a suspensão do projeto.
O governo sustenta que a separação por ciclos gera resultados “15% acima da média”, mas admite que a reestruturação agora será discutida “escola por escola”. O impasse sobre o fim do ano letivo e a desocupação das unidades permanece sem solução imediata.
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