Por Amilton Farias – Opinião
No dia 15 de março de 1985, o Brasil encerrava um dos capítulos mais sombrios e sangrentos de sua trajetória: a ditadura empresarial-militar. A posse de José Sarney, após o trágico destino de Tancredo Neves, simbolizava o fim de 21 anos de arbítrio, censura e terror estatal. Contudo, olhar para esta data em 2026 exige mais do que uma celebração protocolar; exige a coragem de encarar as cicatrizes que nunca fecharam e as ameaças que voltaram a rondar o Palácio do Planalto.
A ditadura não foi apenas um “período de exceção”, como tentam suavizar os revisionistas. Foi um sistema de extermínio. Milhares de brasileiros foram perseguidos, torturados, assassinados ou simplesmente “desaparecidos” pelos porões do regime. Famílias ainda buscam os restos mortais de seus entes, enquanto o Estado brasileiro, em sua transição negociada, evitou punir os carrascos, permitindo que o ovo da serpente continuasse a ser chocado nos quartéis e em gabinetes parlamentares.
A sombra do bolsonarismo e o flerte com o abismo
Recentemente, o Brasil sentiu o hálito fétido do autoritarismo novamente. O governo ultraconservador de Jair Bolsonaro não foi apenas um hiato democrático, mas uma tentativa deliberada de desmonte institucional. O país assistiu, estarrecido, à defesa explícita de torturadores da estirpe de Brilhante Ustra e ao incentivo ao ódio contra minorias e opositores.
O perigo tornou-se letal durante a pandemia de Covid-19. O negacionismo científico e a rejeição às vacinas não foram erros de gestão, mas escolhas políticas que resultaram em centenas de milhares de mortes evitáveis. O Brasil de Bolsonaro revelou que a democracia é um cristal frágil quando parlamentares e líderes usam a liberdade de expressão para pregar o fim das liberdades alheias e o retorno de um passado de botas e baionetas.
Uma democracia sem o povo no comando
A transição iniciada em 15 de março de 1985 e consolidada na Constituição de 1988 nos deu o direito ao voto, mas falhou em entregar o poder real ao povo. Mesmo sob governos progressistas, que avançam em pautas sociais e na humanização das relações, a estrutura do Estado permanece blindada pelos interesses das elites econômicas e das cúpulas militares.
A democracia que vivemos é, muitas vezes, uma fachada onde o povo é chamado apenas para chancelar decisões tomadas em círculos restritos. Enquanto parlamentares defenderem abertamente o AI-5 e a tortura sem serem cassados, e enquanto a economia for ditada pelo mercado em detrimento da fome, a redemocratização será um processo inacabado.
“Lembrar o 15 de março é entender que a democracia não é um destino conquistado, mas uma trincheira diária. Se não houver justiça pelos crimes do passado e poder real nas mãos da classe trabalhadora no presente, estaremos sempre a um passo do retorno às trevas.”
A história nos ensina: o silêncio de hoje é a tortura de amanhã. É preciso democratizar a democracia.
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*Amilton Farias é jornalista e editor chefe do Portal Fronteira Livre
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Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.
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