*Por Rafael Portillo – Opinião

A Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) rememora grandes batalhas do Paraguai contra Brasil, Argentina e Uruguai. Principalmente, a Batalha de Acosta Ñu, onde foram massacrados cruelmente crianças, mulheres e idosos. Este dia é lembrado como a mais heroica batalha americana, onde 20 mil soldados enfrentaram 3.500 crianças paraguaias.

Os crimes de guerra cometidos pelos aliados em Acosta Ñu foram um dos mais terríveis da história militar do mundo. Um símbolo terrível da crueldade foram as crianças aterrorizadas que se agarravam às pernas dos soldados, chorando e pedindo para não serem mortas. Eram degoladas no ato. A resistência em Acosta Ñu e o sacrifício dessas crianças simbolizam perfeitamente como a guerra se tornou implacável.

O escritor brasileiro Julio José Chiavenato (1984) em seu livro “Genocídio Americano” mencionava a crueldade de um dos comandantes dos aliados, o Conde D’Eu: “Quanto tempo, quantos homens, quantas vidas e quantos elementos e recursos precisaremos para terminar a guerra, isto é, para converter em fumaça e pó toda a população paraguaia, para matar até o feto no ventre da mulher”.

O Genocídio em Gaza

Para entender a importância da posição do Estado paraguaio diante da situação que o povo palestino atravessa, é crucial considerar a história de crimes de guerra na guerra de Israel contra a Palestina. Desde seu início em 7 de outubro de 2023, deixou cerca de 54.900 palestinos mortos, em sua maioria mulheres e crianças, segundo relatório do Ministério da Saúde de Gaza.

O UNICEF advertiu que as crianças em Gaza não têm acesso sequer a uma refeição por dia devido ao bloqueio de ajuda humanitária imposto por Israel. É o pior momento que as crianças em Gaza jamais viveram.

A resistência do povo Palestino assemelha-se à do povo paraguaio durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) no que diz respeito à luta pela defesa de seu território e sua identidade. No entanto, a diferença reside em que os palestinos enfrentam armas modernas e táticas militares avançadas, o que resulta em uma grande quantidade de vítimas civis, incluindo crianças.

A situação em Gaza é inaceitável, um crime contra a humanidade e um genocídio. Não é o primeiro na história da humanidade, mas sua visibilidade é diferente. A especificidade da crise em Gaza é que, diferentemente de outros holocaustos, este é amplamente exposto diante da humanidade graças aos meios de comunicação.

Isso é um genocídio perpetrado abertamente pelo Estado de Israel, sob o atento olhar indiferente da comunidade internacional.

Posicionamento ideológico de Peña

No entanto, o presidente Santiago Peña, motivado pelo sionismo, em um primeiro episódio, havia transferido a embaixada do Paraguai para Jerusalém (2023), demonstrando que cumpre as diretrizes de seu mentor político, Horacio Cartes. Cabe destacar que a maioria da comunidade internacional reconhece Tel Aviv como a capital de Israel.

Em outro episódio, Peña viajou aos EUA para receber uma distinção da comunidade judaica por sua defesa incondicional a Israel. Mais recentemente, o Paraguai votou contra a Resolução da Assembleia Geral da ONU que aprova o fim da ocupação de territórios palestinos. Esta resolução não vinculante, adotada por maioria, exige o fim da ocupação dos territórios palestinos por parte de Israel.

A posição do presidente Peña é própria de uma concepção do “Orientalismo”, ou seja, compreende o Oriente Médio e principalmente a Palestina como povo árabe-islâmico e sua cultura de maneira estereotipada e reducionista, considerando-os como atrasados, inferiores, violentos e fanáticos. Isso representa um olhar estritamente ocidental, de submissão às políticas exteriores ditadas pelos EUA.

A dívida moral do Paraguai

Os Palestinos merecem ser atendidos com suma urgência, especificamente na Faixa de Gaza. A postura injusta de Peña não representa os ideais do povo paraguaio, conhecido por sua solidariedade e pacifismo. Como presidente, faltou-lhe autoridade moral para condenar a guerra e reclamar à comunidade internacional uma saída justa para o povo palestino.

O conflito palestino-israelense é o epicentro da instabilidade no Oriente Próximo, e sua resolução é crucial para o futuro da região. A injustiça que os palestinos padecem desde a criação do Estado de Israel, marcada pela ocupação e colonização, não só representa uma crise humanitária, mas também uma das grandes questões morais de nossa época. Nesse sentido, Edward Said (1979) enfatizava a importância da Autodeterminação para os Palestinos.

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*Rafael Portillo é sociólogo formado pela Universidade da Integração Latino-Americana (Unila).

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Fontes.

ABC color (2024). Peña y Netanyahu inauguran Embajada de Paraguay en Jerusalén. www.abc.com.py.

CHIAVENATO, J. J. (1984). Genocidio Americano. La Guerra del Paraguay. Ed. Argentina.

Edward Said (1978). Orientalismo.

Edward Said (1979). La cuestión Palestina. Noticias de Paraguay y el mundo de último momento hoy en ABC Color (https://www.abc.com.py/)