FORMOSA (ARGENTINA) – A morte de Pablo Sanagachi, aos 19 anos, vítima de tuberculose agravada pela desnutrição, e de Daniel Ajisak, de 16 anos, após um golpe na cabeça, não são casos isolados. Para Felix Diaz, líder da comunidade indígena Potae Napocna Navogh (A Primavera), esses episódios refletem um padrão crescente de violência contra o povo Qom, no estado de Formosa, ao norte da Argentina.

Segundo Diaz, as agressões, ameaças e mortes aumentaram nos últimos anos e estão diretamente ligadas à disputa por terras ancestrais. “Estamos sofrendo uma horrível perseguição”, afirma. Ele denuncia que interesses econômicos ligados à soja, à pecuária e a empresas multinacionais pressionam a retirada dos indígenas de áreas hoje valorizadas comercialmente.

Felix Diaz tornou-se uma das principais vozes de denúncia dessa realidade, com apoio de intelectuais como Eduardo Galeano e de organizações históricas como as Madres de Plaza de Mayo. Apesar das ameaças de morte que recebe com frequência, sustenta que “a luta é o único caminho para reverter essa situação”.

Território, violência e impunidade

Na avaliação do líder Qom, a violência está diretamente ligada à resistência da comunidade à expansão da soja e da pecuária sobre seus territórios. Ele denuncia a atuação arbitrária da polícia, invasões de casas durante a noite e a ausência de investigações aprofundadas quando indígenas morrem. “Quando um indígena morre, dizem que foi acidente, suicídio ou morte natural. Nunca investigam”, afirma.

Felix Diaz relata que a democracia não chega aos territórios indígenas e que falta informação real sobre direitos humanos, civis e indígenas. A consequência, segundo ele, é o desespero de comunidades que não sabem mais a quem recorrer diante da repressão.

Exclusão social, danos ambientais e doenças

Além da violência direta, a comunidade enfrenta exclusão histórica de programas sociais, falta de acesso à água potável e graves danos ambientais. Diaz aponta que produtos químicos usados na fumigação da soja contaminam casas e reservatórios de água da chuva, provocando doenças e mortes. Entre 2007 e 2008, segundo ele, 65 pessoas morreram na comunidade em decorrência dessas substâncias.

Doenças como tuberculose tornaram-se recorrentes, agravadas pela pobreza, pela desnutrição e pela ausência de atendimento adequado.

História do território e repressão estatal

Felix Diaz lembra que o Estado argentino reconheceu a presença indígena na região ainda em 1940, reservando cerca de cinco mil hectares à comunidade. Esse reconhecimento foi reafirmado em 1952 e 1963, mas sofreu sucessivos cortes, especialmente durante a ditadura militar e após a redemocratização.

Em 2005, a aprovação de uma lei de emergência territorial reacendeu a esperança de devolução das terras, mas a província de Formosa rejeitou sua aplicação, alegando autonomia. Em 2010, após o vencimento da lei, a comunidade iniciou protestos que resultaram em repressão policial e na morte de Roberto López, caso que, segundo Diaz, jamais foi esclarecido.

Cooptação política e divisão interna

O líder indígena denuncia práticas de cooptação política por parte do governo provincial, que escolhe representantes alinhados aos interesses do poder local, deslegitimando lideranças eleitas pela comunidade. Segundo ele, benefícios materiais e cargos são usados para dividir os indígenas e enfraquecer a luta coletiva.

Como resposta, a comunidade formalizou sua organização política, a Potae Napocna Navogh, buscando garantir representação legítima e fortalecer a identidade indígena, apesar das dificuldades impostas por mecanismos jurídicos externos à cultura dos povos originários.

Racismo institucional e Judiciário

Felix Diaz afirma que há racismo estrutural nas instituições judiciais e políticas de Formosa. Para ele, o discurso oficial de inclusão não se reflete na prática. Indígenas que se opõem ao sistema sofrem retaliações, como suspensão de atendimento médico, falta de acesso à água e intimidações durante períodos eleitorais.

“O sistema é feudal”, resume, ao descrever um modelo que controla documentos, votos e a própria sobrevivência das comunidades.

Leis que existem, mas não são aplicadas

Embora a Constituição argentina e tratados internacionais reconheçam os direitos indígenas, Diaz destaca que muitas leis não foram regulamentadas e, por isso, não podem ser usadas em defesa dos territórios comunitários. A legislação prioriza a propriedade privada, ignorando o uso coletivo da terra, essencial para a vida material, cultural e espiritual dos povos indígenas.

Sem território, afirma, surgem doenças, pobreza extrema e a impossibilidade de desenvolvimento humano.

Luta, esperança e ameaça constante

Apesar das ameaças de morte, Felix Diaz diz não agir por medo, mas por convicção. “Se não lutarmos, fica pior”, afirma. Para ele, todos os direitos conquistados na história são fruto de luta, e o mesmo vale para os povos indígenas.

“Nossa consciência está tranquila”, diz. “Mas a Argentina tem uma dívida social com os povos indígenas. E, no nosso caso, essa dívida só será paga com a devolução do nosso território.”

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