*Por Amilton Farias – Opinião
FOZ DO IGUAÇU (PR) – É Natal. Ainda que o aniversariante simbólico da data não tenha nascido em 25 de dezembro. Ainda que o chamado “espírito natalino” dure pouco — às vezes apenas 24 horas, no máximo uma semana — antes de desaparecer na rotina apressada do ano seguinte.
É Natal, mesmo quando a figura do Papai Noel, moldada pelo comércio, se torna mais importante do que o sentido original da celebração. Talvez isso não seja um problema para alguns, afinal, historicamente, o nascimento celebrado nem mesmo ocorreu neste dia.
É Natal, ainda que os afetos, os abraços e as palavras de amor sejam passageiros. Muitas vezes, não passam de gestos protocolares, ditos mais por obrigação social do que por permanência no cotidiano.
É Natal quando famílias que poderiam se reunir em tantos outros momentos escolhem este único dia para estarem juntas — e apenas nele. O resto do ano fica preenchido por justificativas como falta de tempo, distância ou cansaço.
É Natal quando o carinho se materializa em presentes comprados, muitas vezes, com dinheiro que não se tem, apenas para atender expectativas alheias ou evitar constrangimentos silenciosos à mesa.
É Natal também para quem sofre. Para quem não consegue comprar presentes, nem garantir uma ceia. Para pais e mães que se sentem diminuídos porque a sociedade — e parte da mídia — insiste em definir que Natal é consumo, abundância e espetáculo.
É Natal quando programas apelativos utilizam a data para autopromoção, elevam índices de audiência e exibem celebridades fantasiadas de Papai Noel distribuindo presentes em comunidades empobrecidas. Sim, dizem, isso também é Natal.
É Natal mesmo sabendo que o comércio e a publicidade empurram o verbo “comprar” até o limite do endividamento. Compra-se o que não é necessário, o que não será usado, o que não trará, de fato, felicidade duradoura.
É Natal quando grandes conglomerados falam em crise, mas registram cofres cheios graças ao marketing que transforma emoção em mercadoria e solidariedade em estratégia de venda.
É Natal…
É.
Ainda assim, é Natal.
_________
*Amilton Farias é jornalista e editor chefe do Portal Fronteira Livre