As espécies em que as fêmeas experimentam a menopausa são raras. Além dos humanos, apenas quatro cetáceos dentados — golfinhos, belugas, narvais e orcas — compartilham essa característica. No restante do reino animal, as fêmeas permanecem férteis até o final de suas vidas. Essas exceções são um mistério evolutivo, mas a hipótese da avó sugere que, ao deixarem de reproduzir, as avós podem ajudar a cuidar dos netos. Um novo estudo com orcas confirma que os netos vivem mais quando têm avós presentes.

Pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido analisaram dados de quase 50 anos de duas populações de orcas sedentárias na costa ocidental do Canadá e dos EUA, envolvendo 726 indivíduos. Os dados incluíram informações sobre idade, sexo, filhotes, laços familiares e mortalidade, além da abundância anual de salmão real, a principal fonte de alimento dessas orcas.

Com essas informações, os cientistas comprovaram a validade da hipótese da avó entre as orcas. Assim como em outros mamíferos, os filhotes de mães que falecem têm maior probabilidade de sobreviver nos dois anos seguintes do que aqueles que perdem suas avós. A pesquisa, publicada na revista PNAS, revela que a probabilidade de mortalidade dos filhotes nos dois anos seguintes à morte de uma avó é 4,5 vezes maior do que a dos netos que a mantêm viva.

“As avós parecem desempenhar um papel importante ajudando seus netos”, afirma Daniel Franks, biólogo da Universidade de York e coautor do estudo. “As fêmeas mais velhas têm experiência em guiar suas famílias em busca de alimento, especialmente em momentos críticos de escassez de salmão”, acrescenta o especialista em orcas. Os dados mostram que a mortalidade dos filhotes órfãos de avó aumenta em até 6,7 vezes durante anos de baixa abundância de salmões.

Entre as populações de orcas sedentárias, tanto machos quanto fêmeas permanecem com suas mães, mesmo que os machos deixem o grupo para acasalar. Os machos costumam viver cerca de 30 anos, enquanto as fêmeas atingem a maturidade sexual por volta dos 10 anos e entram na menopausa aos 40, podendo viver mais 40 anos ou mais. Essas quatro décadas são cruciais para a sobrevivência de sua linhagem.

Um estudo de 2017 já havia indicado que filhotes de mães e filhas que têm filhotes ao mesmo tempo enfrentam maiores riscos de mortalidade, sugerindo que a concorrência por recursos pode ser prejudicial. “Esse novo trabalho mostra pela primeira vez que as avós pós-reprodutivas aumentam a sobrevivência de seus netos”, destaca Darren Croft, professor de conduta animal da Universidade de Exeter e principal autor do estudo de 2017.

Apesar das vantagens da hipótese da avó, a prática é rara em muitas espécies. Entre os grandes símios, as avós dos bonobos também ajudam seus netos, assim como as avós em populações de elefantes, sem que isso impeça a fertilidade.

Franks observa que a hipótese da avó explica parte da evolução da menopausa. “Ela explica por que fêmeas evoluíram para viver tanto tempo após a reprodução. Elas ainda podem transmitir seu legado genético ajudando seus familiares, mas o fim da idade reprodutiva também reduz os custos associados à reprodução”, conclui.