São Paulo–SP. Nascido em Mogi Mirim em 1881 (e não 1882 como indicam alguns registros), Edgard Frederico Leuenroth foi muito mais que um jornalista: foi o motor intelectual e prático do anarquismo brasileiro durante a Primeira República. Autodidata “formado na universidade da vida”, Leuenroth transformou o ofício de tipógrafo em uma poderosa ferramenta de emancipação social.
Do Brás às oficinas da revolução
Após a morte precoce do pai, Leuenroth mudou-se para o bairro do Brás, em São Paulo, coração da nascente classe operária paulistana. Começou a trabalhar aos dez anos como menino de recados, mas foi nas oficinas gráficas que encontrou sua vocação. Em 1897, aos 16 anos, fundou seu primeiro jornal, O Boi, utilizando um clichê de impressão achado ao acaso.
Foi o contato com o poeta libertário Ricardo Gonçalves, em 1901, que selou seu destino. Dali em diante, Leuenroth nunca mais abandonaria os princípios da ação direta e da solidariedade internacionalista.
O caso Idalina e o enfrentamento ao Clero
Em 1912, Leuenroth demonstrou sua coragem jornalística ao dirigir o jornal anticlerical A Lanterna. Ele denunciou o brutal “Caso Idalina” — o estupro e assassinato de uma criança no Orfanato São Cristóvão pelo padre Faustino Consoni. O escândalo gerou uma revolta popular sem precedentes em São Paulo e levou Leuenroth à sua primeira prisão, da qual foi defendido pelo célebre advogado Evaristo de Morais.
1917: O ano que abalou o Brasil
Leuenroth foi a alma da Greve Geral de 1917. Como diretor do jornal A Plebe, ele articulou a comunicação entre as categorias. Acusado pelo Estado de ser o “autor psíquico-intelectual” do movimento e de saquear o Moinho Santista, enfrentou meses de cárcere. Mesmo na prisão, recusou uma candidatura a deputado oferecida por companheiros, mantendo-se fiel ao dogma anarquista de não participação no Estado.
“Sou anarquista e a ele permaneço fiel. Não compactuarei com o Estado nem para protestar.” — Edgard Leuenroth, em resposta à proposta de candidatura.
O conflito com o bolchevismo
Com a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1922, Leuenroth tornou-se um dos principais críticos do centralismo soviético. Ele resistiu às tentativas de Astrojildo Pereira de alinhar os sindicatos brasileiros às ordens de Moscou, defendendo até o fim a autonomia operária e o federalismo libertário.
Legado: O arquivo Edgard Leuenroth (AEL)
Nos seus últimos anos, Leuenroth trabalhou como arquivista, reunindo um tesouro documental sobre o movimento operário, anarquista e sindical. Após sua morte em 1968, esse material foi doado à Unicamp, dando origem ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), hoje a fonte de pesquisa mais importante da América Latina sobre a história social brasileira.
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