Foz do Iguaçu, PR – A região da Tríplice Fronteira passou a ocupar posição estratégica na nova cooperação formalizada entre Brasil e Estados Unidos para enfrentar o tráfico internacional de armas e drogas. A agenda bilateral, oficializada pelo governo brasileiro no último dia 10 de abril, foi consolidada após visita técnica realizada em janeiro de 2026 a Foz do Iguaçu, município apontado como área sensível para o monitoramento de rotas usadas por redes criminosas transnacionais.

O acordo reúne a Receita Federal do Brasil e a U.S. Customs and Border Protection (CBP), agência de fronteiras dos Estados Unidos, dentro do Projeto MIT (Mutual Interdiction Team). A proposta é ampliar a troca de informações de inteligência, fortalecer ações coordenadas e antecipar a identificação de cargas suspeitas destinadas ao território brasileiro.

Ao colocar Foz do Iguaçu no centro dessa articulação, a cooperação reforça o peso geopolítico da fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina no combate ao contrabando, ao tráfico de drogas e ao envio ilegal de armas e componentes.

Durante o anúncio, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a iniciativa busca transformar a cooperação entre os dois países em medidas concretas contra o crime organizado.

“Hoje marca o primeiro passo relevante, depois da conversa do presidente Lula com o presidente (Donald) Trump, no sentido de avançar na cooperação e no combate ao crime organizado entre os nossos dois países. O que nós estamos fazendo é demonstrando e fazendo as medidas executivas e concretas que nos permitem manter tanto o Brasil quanto os Estados Unidos mais seguros e com inteligência e combate ao crime organizado”, disse.

Foz do Iguaçu no foco da inteligência internacional

A visita técnica feita em janeiro em Foz do Iguaçu consolidou o alinhamento operacional entre autoridades brasileiras e norte-americanas. O movimento ocorre em meio ao reforço da vigilância sobre corredores logísticos considerados vulneráveis à circulação de mercadorias ilícitas, especialmente na faixa de fronteira.

A escolha da cidade não é aleatória. Pela posição geográfica e pelo intenso fluxo de cargas e pessoas, Foz do Iguaçu é tratada há anos como ponto sensível em investigações ligadas ao crime organizado internacional. A nova etapa da cooperação pretende justamente ampliar a capacidade de leitura prévia dessas movimentações.

Um dos principais instrumentos anunciados é o mecanismo de Remote Targeting, que permite a análise remota de cargas e o envio contínuo de dados e relatórios de inteligência dos Estados Unidos ao Brasil antes mesmo da chegada das remessas.

Segundo Durigan, as informações serão repassadas em tempo real da Receita Federal à Polícia Federal, com potencial de resposta mais rápida das autoridades brasileiras.

“Essa informação vai ser compartilhada diretamente em tempo real da Receita Federal para a Polícia Federal, de modo que a gente ganhe em cooperação, aumente a inteligência, lembrando que o que vem é tanto a informação bruta quanto um relatório de inteligência, informações que são acionáveis do ponto de vista das nossas autoridades rapidamente”, afirmou.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, disse que a nova base de dados permitirá atuação mais integrada entre os órgãos brasileiros.

“São informações de grande relevância que nós receberemos dessa análise de contêineres que estão vindo ao Brasil e que vai permitir que cada agência cumpra as suas funções e ao mesmo tempo troque informações que vão ajudar tanto a Receita quanto a Polícia Judiciária e a Polícia Federal a atuarem nesse processo”, declarou.

Sistema amplia rastreamento de armas e materiais sensíveis

A cooperação também inclui o lançamento do Programa DESARMA, sistema informatizado da Receita Federal voltado ao rastreamento internacional de armas, munições, peças, componentes, explosivos e outros materiais sensíveis.

Com a ferramenta, Brasil e Estados Unidos poderão compartilhar, em tempo real, dados relacionados a apreensões e cargas suspeitas. Entre as informações incluídas estão origem declarada, detalhes logísticos, identificação de remetentes e eventuais números de série, o que permite mapear rotas e vínculos entre operadores envolvidos nas remessas.

O sistema também prevê o envio de alertas às autoridades aduaneiras do país de origem ou procedência da mercadoria apreendida, ampliando a cooperação em torno da gestão de risco e da integridade da cadeia logística.

A base normativa dessa troca foi reforçada pela Portaria RFB nº 663/26, que autoriza o compartilhamento de informações e a execução de ações coordenadas com a agência de fronteiras dos Estados Unidos.

O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, afirmou que o Brasil passará a receber dados estratégicos para aprimorar a gestão de risco e, ao mesmo tempo, enviará sistematicamente informações sobre apreensões realizadas no país.

“O combate às organizações criminosas aqui no Brasil tem que se dar com inteligência, tem que se dar atacando o pilar financeiro dessas organizações criminosas, mas é também claro que o combate às organizações criminosas não se dá apenas no território nacional. Se dá também nas nossas fronteiras, impedindo que essas organizações criminosas recebam insumos para as suas atividades, basicamente armas, mas também drogas”, destacou.

Meia tonelada de peças de armas e mudança nas rotas do tráfico

Segundo a Receita Federal, os dados mais recentes do Programa DESARMA indicam 35 ocorrências registradas nos últimos 12 meses, com apreensão de 1.168 partes e peças de armas, somando cerca de 550 quilos. As remessas partiram principalmente da Flórida, nos Estados Unidos, com uso de declarações fraudulentas e métodos de ocultação.

As informações compartilhadas pelos norte-americanos também ajudaram a identificar estratégias sofisticadas de ocultação, como partes de fuzis escondidas em estruturas de equipamentos de airsoft e drogas camufladas em embalagens de produtos comuns, a exemplo de ração animal enviada por remessas postais.

“São mais de meia tonelada de armas apreendidas pela aduana brasileira nos últimos 12 meses, que agora nós vamos alimentar esse sistema para informar as autoridades americanas da sua origem, de quem enviou essas armas, dados, para que as autoridades americanas possam ir a esses enviadores dessas armas para que isso seja interrompido”, afirmou Barreirinhas.

A Receita também apontou crescimento nas apreensões de drogas no Aeroporto de Guarulhos. O volume passou de 89 quilos em 2024 para 1.562 quilos nos três primeiros meses de 2026, com mudança no perfil do tráfico: mais uso de cargas, menor sofisticação na ocultação e diversificação dos aeroportos de origem.

Fronteira ganha peso na estratégia de segurança

A formalização da cooperação reforça o uso de inteligência, tecnologia e articulação internacional como pilares da política de enfrentamento ao crime organizado. No caso de Foz do Iguaçu, a inclusão explícita da cidade na construção da agenda bilateral recoloca a fronteira no centro de uma disputa que vai além da segurança local e envolve redes internacionais de abastecimento de armas e drogas.

Na prática, o governo federal aposta que o cruzamento de dados em tempo real e o rastreamento na origem ajudem a reduzir a entrada de insumos utilizados por facções e outras organizações criminosas que atuam no Brasil.

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