Brasília, DF – A corrida por minerais considerados estratégicos para a transição energética e para a indústria global já alcança 278 terras indígenas no Brasil. O número representa 44% desses territórios e expõe o avanço de requerimentos minerários sobre áreas protegidas, segundo levantamento do Observatório da Transição Energética.

Os dados mostram que ao menos 2.055 pedidos de exploração estão sobrepostos ou a até 10 quilômetros dessas terras, envolvendo elementos como lítio, cobre, estanho e terras raras — insumos essenciais para tecnologias de energia renovável, eletrificação e também aplicações militares.

Expansão acelerada nos últimos anos

A pressão sobre os territórios indígenas se intensificou nos últimos cinco anos. Metade dos mais de 29 mil requerimentos relacionados a minerais críticos registrados no país foi protocolada entre 2021 e 2025, conforme dados da Agência Nacional de Mineração.

A maior parte dos pedidos ainda está em fase inicial, mas já existem operações em andamento que afetam diretamente 38 terras indígenas.

Entre os territórios mais impactados está a Terra Indígena Kiriri de Caldas, no sul de Minas Gerais, cercada ou sobreposta por 55 áreas minerárias. Também aparecem entre os casos mais pressionados as terras Kayapó e Apyterewa, no Pará, e Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia.

A expansão da mineração é impulsionada pela demanda global por matérias-primas utilizadas em tecnologias de baixo carbono, como baterias de veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas.

Relatório da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil alerta que esse movimento pode transformar territórios tradicionais em áreas de impacto ambiental intenso, mesmo sob o argumento de avanço de energias consideradas limpas.

“Terra nenhuma pode ser destruída para avançar em uma transição por energias, teoricamente limpas, mas que na prática deixam rastros de destruição”, aponta o documento da organização.

O relatório foi apresentado durante o Acampamento Terra Livre 2026, que reúne milhares de indígenas de diferentes regiões do país.

O avanço dos requerimentos ocorre em paralelo a discussões no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal sobre a regulamentação da mineração em terras indígenas.

A APIB aponta a existência de articulações políticas para flexibilizar as regras atuais, ampliando a possibilidade de exploração mineral nesses territórios.

“Expandir a mineração em terras indígenas com essa justificativa é uma contradição moral, política e social”, sustenta o relatório.

A organização também critica decisões recentes do Supremo Tribunal Federal que abriram prazo para regulamentação da atividade pelo Congresso, além de autorizações pontuais envolvendo exploração mineral em territórios específicos.

A demanda por minerais críticos cresce em ritmo acelerado no cenário internacional. Projeções da Agência Internacional de Energia indicam que a procura por terras raras pode aumentar entre 50% e 60% até 2040, enquanto a demanda por lítio pode multiplicar por cinco.

O Brasil ocupa posição estratégica nesse mercado, com uma das maiores reservas globais desses minerais, o que amplia o interesse de empresas e governos estrangeiros.

Dados analisados pelo levantamento indicam que 89% dos pedidos de exploração de terras raras e 94% dos requerimentos relacionados ao lítio foram registrados nos últimos cinco anos.

Foto: Divulgação/Guilherme Cavalli/Cimi

Para organizações indígenas, o avanço da mineração está diretamente ligado ao modelo de desenvolvimento adotado diante da crise climática.

“Demarcação é mitigação”, aponta o relatório da APIB, ao defender que a proteção dos territórios indígenas é fundamental para conter impactos ambientais.

O documento também avalia que parte dos setores econômicos tem tratado a transição energética como oportunidade de expansão de atividades extrativas, mantendo padrões de exploração já conhecidos.

(Com informações do Repórter Brasil)