*Por Rafael Portillo – Opinião
A Associação Nacional Republicana (ANR), Partido Colorado, está sendo devorada por um movimento interno, Honor Colorado (HC). Esse movimento, liderado pelo ex-presidente (significativamente corrupto) Horacio Cartes, atual presidente da ANR, reúne aqueles que se vinculam ao cartismo, onde se concentram todo tipo de militantes. Desde um seccionalero, vereador, prefeito até senadores e ministros, alguns com longa trajetória partidária e outros que não passam de aduladores.
Para compreender a dinâmica político-eleitoral, principalmente do Honor Colorado, é necessário analisar suas características no contexto de governo. Como se trata de um movimento hegemônico, não apenas concentra os espaços de poder partidário, mas também os do Estado. Escolhem membros do Júri de Enjuiciamento de Magistrados com o objetivo de utilizar a justiça como instrumento contra seus adversários políticos.
O presidente Santiago Peña conta com uma maioria parlamentar significativa no Congresso Nacional, o que lhe permitiu aprovar seus planos econômicos sem grandes obstáculos. Essa maioria lhe deu capacidade de impulsionar sua agenda legislativa sem necessidade de negociar com a oposição. No entanto, alguns analistas políticos têm apontado que essa maioria também gera críticas quanto à falta de debate e à concentração de poder no Executivo.
Nesta análise, busca-se destacar o papel do partido de governo, ou seja, as disputas internas que se tornam visíveis à luz da campanha eleitoral e, por outro lado, as atuações nefastas de parlamentares, desde os oficialistas de primeira linha, passando pelos que migraram de outros movimentos, como o Añetete, de segunda linha, até os trânsfugas, de terceira linha.
O movimento Honor Colorado havia derrotado, nas internas de 2023, o movimento Añetete, garantindo a vitória de Peña nas eleições gerais e assegurando à ANR uma maioria simples em ambas as câmaras. Principalmente no Senado, onde o debate é mais político, os senadores cartistas recrutaram vários eleitos de outros movimentos e partidos, tanto liberais quanto independentes.
Entende-se quando um colorado muda de movimento, pois isso faz parte do clientelismo que sustenta o Partido Colorado. O que é difícil de explicar é quando membros de outros partidos fazem o mesmo, como no caso dos chamados “liberocartistas”, senadores liberais totalmente submetidos ao projeto do Honor Colorado. Soma-se a isso a atuação dos trânsfugas, aqueles que foram eleitos por alianças ou de forma independente e acabaram abandonando suas promessas eleitorais.
O Honor Colorado, ao buscar uma maioria absoluta, acabou reciclando figuras consideradas inservíveis da classe política com o objetivo de garantir uma base cartista. No entanto, não se observa uma coesão total desses atores com o movimento. Eles se dividem em níveis de proximidade com Cartes: os leais eleitos diretamente pelo movimento, os de segunda linha e os de terceira linha.
Entre os mais próximos estão nomes como Basilio Núñez, presidente do Congresso; o senador Antonio Barrios, médico de confiança de Cartes; Gustavo Leite, atual embaixador nos Estados Unidos; Lizarella Valientes, Silvio Ovelar, Hernán Rivas, Erico Galeano e o líder de bancada, Natalicio Chase. Esses integram o chamado cartismo duro, ou, como definem, o comando do HC.
Na segunda linha estão figuras como Zacarías Irún, Derlis Maidana, Colyn Soroca, Derlis Osorio e Carlos Núñez, entre outros, que mantêm certa autonomia clientelista. De acordo com suas necessidades, aproximam-se da liderança para acessar cotas políticas, seja para disputas eleitorais ou para a distribuição de cargos, gestão de órgãos públicos, governos departamentais e municípios. Alguns desse grupo chegam a fazer críticas pontuais ao governo de Peña, especialmente em relação a orçamento e execução, quando não são contemplados. Ainda assim, não denunciam a corrupção crescente dentro do governo.
Na terceira linha aparecem os liberocartistas e trânsfugas, que alimentam o clientelismo e ampliam o ambiente de corrupção no governo colorado. Trata-se de um grupo controverso. Alguns já sofreram reações da própria população, como o senador Javier Vera (“Chaqueñito”), expulso da bancada cartista e posteriormente salvo duas vezes de processos de perda de mandato — até ser finalmente destituído do cargo. Já a senadora Norma Aquino (“Yami Nal”) não teve o mesmo destino e perdeu o mandato.
Essas decisões foram tomadas na chamada “merenda de colorados” (cartistas), o que gera confusão e desorganização entre os grupos de segunda e terceira linha, além de aumentar a tensão dentro do próprio núcleo cartista. Esse ambiente de disputa permanente ficou evidente nos debates e na aprovação da lei de reforma da caixa fiscal no Senado.
Esse modo de atuação também se reflete nas disputas internas eleitorais, que se espalham por diferentes regiões e municípios. As eleições internas para as municipais de 2026 estão previstas para junho, e em nenhum município o Partido Colorado conseguiu chegar a um consenso em torno de um candidato único. Esse cenário deve evidenciar a real capacidade do Honor Colorado e da própria ANR, especialmente diante de uma crise interna marcada por decisões arbitrárias e uso concentrado do poder, características que aproximam o movimento de uma lógica de organização mafiosa.
Não é a primeira vez que o cartismo abandona seus próprios integrantes. Casos como o de Erico Galeano, condenado a 13 anos de prisão por associação criminosa e lavagem de dinheiro, e o de Hernán Rivas, investigado por uso de diploma falso, evidenciam esse padrão. Rivas, inclusive, chegou a presidir o Júri de Enjuiciamento de Magistrados mesmo sem comprovação de formação acadêmica adequada.
Esse cenário reflete o nível de precarização política dentro da ANR, resultado de decisões centralizadas e práticas autoritárias, muitas vezes tomadas em encontros informais, como os chamados “quinchos”.
O resultado, segundo essa leitura, é um quadro de desgoverno na gestão de Peña. O presidente mantém uma agenda intensa de viagens internacionais na tentativa de atrair investimentos, mas sem resultados concretos até o momento. Paralelamente, a política externa paraguaia tem sido alinhada aos interesses dos Estados Unidos e de Israel, incluindo apoio a ações militares e acordos como o SOFA, que envolvem questões de soberania territorial e energética.
___
*Rafael Portillo é sociólogo formado pela Universidade da Integração Latino-Americana (Unila).
____________________________________________
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor (a) e não reflete necessariamente a nossa política editorial. O Fronteira Livre adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência