Bariloche, Argentina – A combinação de mudanças legais, avanço de projetos minerários e aquisição de terras por capitais estrangeiros tem intensificado o debate sobre a exploração de recursos naturais e a soberania territorial na Patagônia argentina.

Nos últimos meses, decisões políticas e administrativas permitiram a ampliação de atividades em áreas antes protegidas, incluindo regiões com presença de geleiras. As alterações na legislação abriram espaço para que empresas multinacionais do setor mineral, como Glencore, Barrick Gold e Rio Tinto, avancem com projetos em territórios anteriormente restritos.

Na província de Río Negro, a concessão de permissões de exploração mineral em áreas sensíveis também gerou questionamentos. Parte dessas autorizações, concedidas à empresa Tamar Mining — vinculada a capitais estrangeiros — foi posteriormente retirada de registros oficiais após denúncias públicas.

Outro ponto central da discussão envolve a compra de grandes extensões de terra por investidores internacionais. O processo reacende críticas sobre a chamada estrangeirização de territórios, especialmente em áreas consideradas estratégicas.

Entre os casos mais conhecidos está o do empresário britânico Joe Lewis, que adquiriu, na década de 1990, cerca de 12 mil hectares na região do Lago Escondido, por meio de operações envolvendo intermediários.

Mais recentemente, investidores ligados aos Emirados Árabes Unidos e ao Catar também ampliaram sua presença na região, com aquisições de terras em áreas próximas a propriedades já controladas por estrangeiros. As negociações incluem grandes extensões rurais, áreas de preservação e regiões próximas a rotas estratégicas.

Segundo denúncias de setores políticos locais, essas aquisições estariam sendo realizadas por meio de estruturas societárias que dificultam a identificação dos reais proprietários, levantando questionamentos sobre o cumprimento da legislação vigente.

A flexibilização de normas ambientais e territoriais tem sido apontada por críticos como parte de uma estratégia para viabilizar novos empreendimentos econômicos, especialmente no setor mineral.

As mudanças também envolvem discussões sobre a legislação que regula a posse e o uso de terras rurais por estrangeiros, tema sensível na Argentina e frequentemente associado a debates sobre soberania e controle de recursos naturais.

Região atrai interesse internacional

A presença crescente de investidores estrangeiros tem sido acompanhada por visitas de autoridades internacionais e aumento de operações privadas na região. Entre os episódios recentes, está a passagem do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed Al Nahyan, por Bariloche, com uma comitiva numerosa e forte esquema de segurança.

Além das aquisições de terras, há relatos sobre a construção de estruturas de alta segurança em propriedades privadas na Patagônia, o que reforça o interesse estratégico da região para investidores internacionais.

O cenário tem ampliado o confronto entre diferentes visões sobre o futuro da Patagônia. De um lado, setores defendem o avanço de investimentos como forma de impulsionar a economia regional. De outro, há críticas sobre impactos ambientais, sociais e territoriais, além de questionamentos sobre transparência e controle público.

O debate segue em curso e deve ganhar novos capítulos à medida que projetos avancem e novas informações venham a público.

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