Campo Grande, MS – Ataques, ameaças e expulsões têm atingido lideranças espirituais indígenas em Mato Grosso do Sul. Um dossiê em elaboração revela um cenário de violência e intolerância religiosa, incluindo casos em que rezadores e rezadeiras são acusados de “bruxaria” para justificar perseguições dentro das próprias comunidades.

Os relatos reunidos pelo dossiê indicam que a maioria das vítimas são mulheres indígenas, especialmente rezadeiras indígenas, que ocupam papel central nas práticas espirituais tradicionais e têm sido alvo recorrente de ameaças e violência.

Entre os episódios documentados está o de uma rezadeira indígena Guarani-Kaiowá expulsa de seu território após ter a casa incendiada e sofrer ameaças de morte. Segundo o relato, ela foi avisada de que seria queimada viva caso retornasse. Atualmente, vive em local seguro, sob proteção de outras lideranças espirituais.

O caso foi identificado durante a pesquisa de campo do II Dossiê de Racismo e Intolerância Religiosa em Mato Grosso do Sul e, de acordo com os pesquisadores, reflete um ambiente crescente de hostilidade contra práticas tradicionais.

A coordenadora de Promoção ao Direito das Mulheres e Meninas Indígenas da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, Jaqueline Aranduha, afirmou que a coleta de dados foi concluída em março e que o relatório está em fase de sistematização, com lançamento previsto até o fim do ano.

“Há expulsões, ameaças e destruição de casas de reza. Muitas vezes isso não chega a ser investigado como crime, mas tratado como conflito interno, o que invisibiliza a violência”, afirmou.

O episódio ocorreu em uma comunidade de Paranhos, na região de fronteira com o Paraguai. Segundo a coordenação do dossiê, a acusação de “bruxaria” tem sido usada para deslegitimar práticas espirituais tradicionais, criando um ambiente de medo e divisão.

Durante a escuta, a rezadeira indígena relatou que a violência partiu de uma liderança da própria comunidade ligada a uma religião cristã. Até o momento, o caso não teve reconhecimento judicial como crime de intolerância religiosa.

“As pessoas passam a ser pressionadas a abandonar sua espiritualidade. Quando resistem, sofrem ameaças ou são isoladas”, disse Jaqueline Aranduha.

Denúncias e histórico de violência

Em fevereiro do ano passado, lideranças Guarani-Kaiowá já haviam denunciado ataques contra práticas espirituais tradicionais à Embaixada da Alemanha no Brasil. O documento foi elaborado pela Aty Guasu e relatava perseguições e destruição de espaços sagrados.

Dados do Conselho Indigenista Missionário indicam que, entre 2020 e 2024, ao menos 16 casas de reza foram incendiadas no Estado. Há também registros de agressões, assassinatos de rezadores e rezadeiras e destruição de objetos sagrados, frequentemente associados a conflitos agrários e à expansão de grupos religiosos.

O dossiê foi elaborado a partir de visitas a nove territórios indígenas em Mato Grosso do Sul. A equipe, coordenada pela Anmiga com apoio de organizações parceiras e assessoria jurídica, ouviu anciãos, rezadores, rezadeiras, lideranças e moradores, além de coletar documentos e denúncias.

Segundo a coordenação, relatos semelhantes ao da rezadeira indígena expulsa se repetem em diferentes regiões do Estado, reforçando a necessidade de políticas públicas específicas para proteção dessas lideranças.

Outro caso que integra o dossiê envolve o incêndio de uma casa de reza na Reserva Indígena de Dourados, pertencente à anciã e rezadeira indígena Floriza de Souza. O espaço foi destruído após uma série de ameaças, sem que houvesse desdobramentos efetivos ou reconhecimento do episódio como crime de intolerância religiosa.

Registros semelhantes ocorreram em Douradinha, onde três casas de reza foram incendiadas em momentos distintos, e em Rio Brilhante, na aldeia Tajasu Ygua, onde outro espaço tradicional também foi destruído.

Enquanto o dossiê não é oficialmente publicado, lideranças indígenas apontam a ausência de respostas institucionais e alertam para a vulnerabilidade de quem mantém práticas espirituais tradicionais.


Com informações do portal Campo Grande News.

 

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