BUENOS AIRES (ARG) – O endereço que marca o início da trajetória do maior ídolo do futebol argentino, Diego Armando Maradona, assumiu uma nova e urgente função social. Localizada em Villa Fiorito, bairro pobre na periferia de Buenos Aires, a casa onde o “Pibe de Oro” nasceu e viveu sua infância foi transformada em um restaurante popular improvisado. Há cerca de um mês, o atual proprietário cedeu o quintal de terra do imóvel para que voluntários organizem a distribuição de marmitas e combatam o avanço da insegurança alimentar na região.
A iniciativa surge em um momento de severa crise econômica na Argentina. Medidas de austeridade e cortes em subsídios de energia e transporte têm impactado o poder de compra da população, resultando em um aumento drástico na demanda por auxílio governamental e comunitário. Em Villa Fiorito, as filas em frente à residência histórica tornaram-se diárias, com centenas de pessoas em busca de sustento preparado em churrasqueiras improvisadas no mesmo solo onde Maradona começou a trilhar seu caminho para a glória mundial.
O cenário de vulnerabilidade é descrito com preocupação por lideranças locais que vivenciam o fechamento de pequenas fábricas e a perda generalizada de postos de trabalho. A desregulamentação econômica e as mudanças cambiais têm alterado a dinâmica do mercado de trabalho, empurrando mais famílias para as filas de assistência.
“As pessoas obviamente perderam seus empregos. Elas entram na fila, pegam a comida e levam o que oferecemos. A demanda tem aumentado não apenas aqui, mas em diversos outros bairros afetados pela paralisação industrial.” — Leonardo Fabián Álvarez, pastor responsável pela cozinha comunitária em Villa Fiorito.
Para especialistas, o desafio do país vizinho reside na necessidade de fomentar setores que gerem ocupação direta de mão de obra para reverter os índices de pobreza que assolam a periferia.
“Apesar de flutuações nos índices, o país precisa ampliar o crescimento do PIB em setores intensivos em mão de obra, como a mineração, saindo da dependência exclusiva de áreas mais ligadas ao capital, como a agricultura.” — Eduardo Donza, sociólogo da Universidade Católica da Argentina.
Patrimônio
Declarada patrimônio histórico nacional em 2021, a casa de Villa Fiorito serve como um memorial vivo de Maradona, que faleceu em novembro de 2020. A transformação do espaço em um centro de acolhimento reforça o vínculo inquebrável entre o eterno camisa 10 e suas origens humildes.
Maradona, que conduziu a Argentina ao título da Copa do Mundo de 1986 e imortalizou seu nome na Europa — especialmente no Napoli, onde formou dupla histórica com o brasileiro Careca —, nunca renegou suas raízes em Fiorito. Hoje, o local que o projetou para o mundo volta a ser o refúgio de uma comunidade que luta pela sobrevivência, mantendo viva a mística de solidariedade que sempre acompanhou a imagem do ídolo.
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