*Editorial Fronteira Livre
A democracia atravessa o seu momento mais dramático em meio século. O que antes parecia uma conquista sólida e irreversível revela-se hoje uma estrutura sob ataque constante de “cupins autocráticos”, que corroem as instituições por dentro. O 10º Relatório do V-Dem Institute (Universidade de Gotemburgo), divulgado recentemente, acende um sinal vermelho: o nível de liberdade do cidadão médio global retrocedeu aos patamares de 1978.
Atualmente, quase três quartos da população mundial (74%) vivem sob regimes autocráticos. Pela primeira vez em 50 anos, os Estados Unidos perderam seu status de democracia liberal de longa data, afundando em um processo que contamina a Europa e desafia o direito fundamental à livre expressão em 44 países.
Enquanto o mundo caminha para o autoritarismo, o Brasil surge no relatório como um caso emblemático de U-turn (retorno em U). Após um período de intensa degradação democrática iniciado em 2016 e agravado no governo de Jair Bolsonaro — marcado por ataques sistemáticos ao Judiciário, à mídia e à lisura das urnas —, o país conseguiu manobrar de volta à rota democrática.
O Brasil é hoje responsável por mais da metade da população mundial que reside em países onde a democracia está melhorando. A responsabilização judicial de figuras que atentaram contra o Estado Democrático de Direito, incluindo o ex-presidente Bolsonaro por abuso de poder e tentativa de golpe, consolida um recado claro: a lei vale para todos.
Defender a democracia exige vigilância sobre a instrumentalização da fé para fins autocráticos. No Brasil e nos EUA, observamos a ascensão de legislaturas que tentam impor dogmas religiosos sobre as leis civis.
No Congresso Nacional brasileiro, a hegemonia de bancadas confessionais tem priorizado pautas que ferem a pluralidade, tentando transformar o púlpito em tribuna e a Bíblia em Constituição. Quando pastores no poder legislam contra direitos de minorias baseados em mandamentos e não no bem comum, a democracia sangra. O Estado é laico não para ser antirreligioso, mas para garantir que todas as fés coexistam (ou a ausência delas) sem que uma se imponha à outra.
A análise revela que os governos de Bolsonaro e Trump não apenas compartilharam retórica, mas implementaram agendas coordenadas contra os direitos humanos:
Ataques às Instituições: Ambos cultivaram a descrença no sistema eleitoral sem provas. A estratégia foi idêntica: questionar a lisura das urnas para justificar rupturas institucionais, culminando na invasão ao Capitólio (2021) e nos ataques de 8 de janeiro em Brasília.
Desmonte Ambiental: Houve um retrocesso deliberado na proteção do bioma. No Brasil, a “passada de boiada” enfraqueceu a fiscalização na Amazônia; nos EUA, o governo Trump retirou o país do Acordo de Paris, priorizando a indústria fóssil em detrimento da sustentabilidade.
Perseguição a Minorias: O uso de “valores tradicionais” serviu de escudo para discursos de ódio contra a comunidade LGBTQIA+ e povos indígenas, buscando restringir direitos reprodutivos e transformar a pluralidade em um monólogo confessional.
Criminalização de Migrantes: A gestão Trump celebrizou-se pela separação de famílias e construção de muros. De forma semelhante, o bolsonarismo inflamou a xenofobia contra fluxos migratórios e refugiados, ignorando tratados internacionais de acolhimento.
Para o cientista político Steven Levitsky, professor de Harvard, é taxativo: hoje, as instituições brasileiras funcionam melhor que as americanas. Enquanto os EUA sofrem com caprichos pessoais de Donald Trump — que utiliza sanções contra ministros do STF e tarifas comerciais como ferramentas de bullying internacional —, o Brasil demonstrou resiliência superior.
A resposta brasileira aos atos antidemocráticos foi mais orquestrada e vigorosa do que a reação americana. O STF cumpriu o papel de “muralha”, embora Levitsky alerte que, superada a crise, a Corte deva retornar ao seu “para o seu devido lugar” assim que a crise atual for superada.
O cenário de 2026 revela uma escalada na violação da soberania de nações não alinhadas às grandes potências. A diplomacia tem sido substituída pela “lei do mais forte”:
Doutrina da Segurança Nacional: Sob Trump, os EUA reafirmaram interesse na Groenlândia, ignorando a autonomia dinamarquesa. Na América Latina, a política de “agir sozinho” culminou em ações drásticas contra a Venezuela e a manutenção do bloqueio asfixiante a Cuba. Países como México e Colômbia enfrentam constantes ameaças de intervenção militar.
Ofensiva no Oriente Médio: Israel tem realizado ataques que a ONU classifica como violações de soberania territorial. Bombardeios contra Gaza, Irã e operações no Catar elevaram a tensão global, destruindo a ordem jurídica criada no pós-guerra.
Democracia no olhar do furacão: Analistas apontam que Washington tenta vincular os vizinhos latinos aos seus desígnios, desestabilizando governos que buscam autonomia, como o Brasil.
A ameaça é institucional: o apoio à extrema-direita e a pressão sobre o Judiciário aos vizinhos servem para punir governos não “subservientes”.
O Desafio de 2026
Ocupamos a 28ª posição no Índice de Democracia Liberal (0,70). Melhoramos na liberdade acadêmica e na redução da censura, mas a polarização profunda ainda é terreno fértil para autocratas.
A democracia não se defende apenas com o voto; ela se sustenta na vigília constante e na recusa em aceitar a intolerância como política de Estado. Enfrentar a arrogância externa e o fundamentalismo religioso interno é o único caminho para que o Brasil continue sendo um farol de esperança em um mundo que tateia de volta para as sombras.
Para o Fronteira Livre, a verdadeira salvaguarda das nossas liberdades reside na união organizada dos trabalhadores e na mobilização social ininterrupta. É nas ruas, nos sindicatos e nas associações de bairro que se constrói a barreira contra o fascismo. Somente uma sociedade civil consciente e disposta a ocupar espaços de poder pode garantir que a pluralidade do povo brasileiro não seja silenciada por decretos ou dogmas.
“A liberdade é uma conquista que se renova a cada amanhecer, pelo suor e pela voz de quem não se curva.” Amilton Farias.
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*Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.