MANAUS | AM – A Amazônia e o Cerrado brasileiro consolidam-se como os principais palcos de um mercado clandestino que movimenta cifras bilionárias e degrada a biodiversidade de forma silenciosa. Dados da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) estimam que 38 milhões de animais são retirados de seus habitats anualmente no Brasil. O cenário é de extrema crueldade: devido às condições insalubres de transporte, apenas um em cada dez animais sobrevive até chegar ao consumidor final.

O comércio ilegal no país apresenta uma rota consolidada, onde animais capturados nas regiões Norte e Nordeste são escoados para os grandes centros urbanos do Sul e Sudeste. As aves são as maiores vítimas, representando mais de 80% do volume traficado devido à exuberância de suas plumagens e cantos, seguidas por peixes, mamíferos e répteis. Esta cadeia é operada por redes articuladas que cooptam pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica nas pontas da coleta, transformando o crime ambiental em uma complexa questão social.

O paradoxo da raridade e o caso da ararinha-azul

Extinta na natureza em 2000, a ararinha-azul é símbolo da destruição causada por colecionadores. Foto: Getty Images

A lógica de mercado impulsiona o extermínio: quanto mais rara a espécie, maior o valor e o desejo de colecionadores por status. O caso da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) é o exemplo mais emblemático. Nativa da Caatinga, a ave foi declarada extinta na natureza no ano 2000 após décadas de pressão do tráfico internacional.

A maioria das ararinhas-azuis foi retirada de seu habitat na Bahia e Pernambuco entre as décadas de 1970 e 1980 por traficantes, comercializadas para colecionadores na Europa e Oriente Médio.

A espécie, que inspirou o personagem principal do filme Rio (2011), passou a representar o extremo perigo que o tráfico de vida selvagem representa para a fauna brasileira.

A partir de 2020, esforços internacionais de conservação permitiram a repatriação de aves da Alemanha e a reintrodução na Bahia, com as primeiras liberações ocorrendo em 2022.

Em novembro de 2025, o projeto sofreu um revés. As últimas ararinhas-azuis que estavam livres foram recapturadas após testarem positivo para circovírus, um vírus letal e nunca antes registrado em aves selvagens na Caatinga, comprometendo os esforços de reintrodução.

Apesar da reintrodução bem-sucedida de indivíduos e repatriações, a espécie continua sob alto risco, e o monitoramento rigoroso é essencial para evitar uma nova extinção.

Atualmente, a ararinha-azul é classificada como “Extinta na natureza” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e “Criticamente em Perigo” na Lista Brasileira

A zona cinzenta entre o mercado legal e o ilegal

Diferente do que o senso comum sugere, o comércio legalizado de animais silvestres frequentemente atua como um catalisador para o tráfico. O mercado formal normaliza a fauna como produto de consumo, levando compradores a buscarem preços menores no mercado negro. Além disso, existe a prática do “esquentamento”: criadores ilegais falsificam anilhas e documentos para dar aparência de legalidade a animais caçados na natureza.

Fiscalizações do IBAMA demonstraram que a fraude é sistêmica. Em 2016, após o órgão passar a entregar pessoalmente as anilhas de identificação somente após a verificação de nascimentos, houve uma queda de 90% nas solicitações e de 60% nas declarações de nascimentos no sistema SisPass, provando que milhares de aves “legais” eram, na verdade, fruto de captura criminosa.

Exploração global e maus-tratos em larga escala

O problema transborda as fronteiras brasileiras. O relatório internacional “Criados para lucrar” revela que mais de 5,5 bilhões de animais silvestres são mantidos em fazendas de 90 países sem parâmetros mínimos de bem-estar. Na China, a indústria de bile de urso mantém 20 mil animais vivos em condições atrozes para extração de fluidos destinados à medicina tradicional. Na África do Sul, cerca de 8 mil felinos são criados para entretenimento turístico e caça de troféus.

Riscos à saúde pública e desequilíbrio ecológico

A retirada massiva da fauna silvestre interrompe funções ecológicas vitais, como a polinização e a dispersão de sementes, degradando a qualidade das florestas. Para o animal, o destino é o confinamento insalubre; para o ser humano, o risco é sanitário. O contato próximo com animais traficados facilita a transmissão de zoonoses conhecidas como Salmonella, raiva, psitacose e leptospirose, além de criar o ambiente ideal para o surgimento de novas pandemias, como ocorreu com a Covid-19.

Como denunciar

A captura, transporte ou venda de animais silvestres sem autorização é crime ambiental sujeito a prisão e multa. Cidadãos que identificarem pontos de venda em feiras, redes sociais ou depósitos clandestinos devem acionar a Linha Verde do Ibama. A participação popular é o principal instrumento para romper as rotas de escoamento e garantir o futuro da biodiversidade brasileira.

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