Você sabia que, até 2015, as senadoras brasileiras não tinham um banheiro feminino dentro do Plenário do Senado Federal? Inaugurado em 1960, o prédio projetado por Oscar Niemeyer refletia a mentalidade da época: um espaço de poder pensado exclusivamente por homens e para homens.
Após mais de cinco décadas de funcionamento, o Senado Federal passou finalmente por uma reforma para abrigar um banheiro feminino no Plenário. O prédio, inaugurado em 1960, foi projetado exclusivamente para o uso masculino, refletindo uma época em que a presença de mulheres nos espaços de poder era sequer cogitada pela elite que desenhou a capital. A ausência dessa estrutura básica serviu como um símbolo físico da opressão institucional. Enquanto os senadores tinham acesso direto a lavabos, as parlamentares enfrentavam o constrangimento de precisar abandonar as sessões e se deslocar até o banheiro de um restaurante ou lanchonete vizinho ao plenário para utilizar o toalete.
A primeira mulher a assumir uma cadeira no Senado foi Eunice Michiles (PDS-AM), apenas em 1979 — dezenove anos após a inauguração de Brasília. Michiles chegou ao posto como suplente, após a morte do titular João Bosco de Lima. Mesmo com sua chegada, a estrutura permaneceu estática por décadas, como se as mulheres fossem apenas “visitantes” temporárias em um clube de proprietários e patrões.
A Conquista da Dignidade
A obra, que antecipou o encerramento do ano legislativo de 2015, só foi entregue em fevereiro de 2016, marcando o fim de um símbolo silencioso da opressão institucional no coração da República. Até então, as 12 senadoras daquela legislatura enfrentavam o constrangimento diário de precisar se deslocar para fora do plenário para utilizar o toalete. Elas eram obrigadas a deixar o plenário e o debate político para buscar um direito básico do lado de fora, evidenciando que, para o sistema, aquelas mulheres “não faziam parte” daquele espaço.
A mudança só ocorreu após a união da bancada feminina, que pressionou pela reforma do antigo lavabo masculino do plenário para garantir a infraestrutura adequada ao exercício do cargo. Infelizmente, somos uma sociedade onde a filosofia do machismo é onipresente, e a mulher que foge do padrão “recatada e do lar” ainda é vista como uma ameaça à ordem social. Esse pensamento retrógrado faz com que os cargos públicos e políticos representativos continuem a ser subocupados pelas mulheres.
Em pleno século 21, é uma afronta ainda ouvir que a política é “coisa de homem”. É um sintoma do atraso escutar, inclusive de outras mulheres, que votar em uma mulher é desperdiçar o voto sob o pretexto de que não seriam capazes de conciliar a maternidade, a família e a carreira com um mandato eletivo. Quem sustenta tal falácia desconhece a força de quem move o mundo; ignora os valores e a resistência inerentes à condição feminina.
As mulheres atravessam a existência em um processo constante de superação — como trabalhadoras, mães, filhas e chefes de família. São elas que, na base da pirâmide, sustentam a economia e os meios de produção deste país, muitas vezes “matando um dragão por dia” e recebendo salários miseráveis, enquanto os patrões e proprietários se apropriam da riqueza gerada por esse suor. A sub-representação política é uma extensão dessa exploração: o sistema tenta manter a mulher longe das decisões para que a ordem dos privilégios não seja ameaçada. O caminho para que as mulheres ocupem seus espaços de direito e sejam representadas por suas iguais é um só: união, mobilização, consciência de classe e o reconhecimento de que o poder deve pertencer a quem realmente produz a vida.
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