*Editorial Fronteira Livre

O Paraguai atravessa um momento definidor de sua história recente, marcado por uma guinada autoritária e subserviente que ameaça a estabilidade de todo o Cone Sul. Sob a gestão de Santiago Peña, o país não apenas reforça seu alinhamento com a extrema direita global, mas formaliza a entrega de seu território ao poder militar dos Estados Unidos através do Acordo sobre o Estatuto das Forças Armadas (SOFA).

O que se apresenta como “cooperação em segurança” é, na verdade, um tratado draconiano. Ao autorizar a entrada de tropas estadunidenses com imunidade diplomática, livre circulação de equipamentos de guerra sem inspeção e o uso gratuito do espectro de rádio paraguaio, Assunção abdica de sua jurisdição penal e aduaneira. É um cheque em branco para a maior força militar do mundo operar no coração da América do Sul, sob o pretexto de combater o terrorismo na Tríplice Fronteira — uma narrativa conveniente que serve para monitorar o Brasil e controlar os recursos estratégicos da região.

A aliança do genocídio e do extremismo

O alinhamento de Peña não para em Washington. O presidente paraguaio tem se destacado como uma das vozes mais estridentes no apoio incondicional ao governo de Benjamin Netanyahu, chancelando o genocídio em curso na Faixa de Gaza. Ao designar grupos de resistência como terroristas e opor-se a qualquer sanção contra o Estado sionista em fóruns internacionais, Peña coloca o Paraguai na contramão dos direitos humanos e da diplomacia progressista latino-americana.

Essa “fraternidade” com a extrema direita — que inclui laços estreitos com o bolsonarismo no Brasil, Milei na Argentina e o governo Trump nos EUA — revela uma estratégia clara: o uso da segurança e da religiosidade como cortinas de fumaça para a manutenção de privilégios das elites econômicas, enquanto a soberania nacional é rifada em banquetes em Nova York e São Paulo.

O mito da prosperidade e a realidade da exclusão

Enquanto o governo vende ao mundo uma imagem de modernidade e crescimento econômico, o Paraguai real padece de uma desigualdade estrutural violenta. É inaceitável que um país que se orgulha de ser um gigante exportador de alimentos ainda tenha 10% de sua população passando fome.

A “prosperidade” de Peña é seletiva. Ela ignora a população rural e indígena, que enfrenta as maiores taxas de pobreza, e mantém uma barreira linguística cruel: 70% dos paraguaios falam guarani, mas os serviços públicos e a justiça são operados em espanhol, excluindo milhões do acesso à cidadania básica. A carga horária escolar, uma das menores do continente, e o crescente analfabetismo digital mostram que o projeto de poder atual não prevê o desenvolvimento do povo, mas a manutenção de uma massa trabalhadora desinformada e barata.

O perigo está à nossa porta

Para o Brasil, a militarização do vizinho é um sinal de alerta máximo. Ter tropas estrangeiras armadas e não sujeitas às leis locais a poucos quilômetros de Foz do Iguaçu é uma ameaça direta à soberania brasileira. O discurso de “combate ao crime organizado” não pode servir de passaporte para a instalação de bases de inteligência estrangeira que atuam acima de qualquer controle democrático regional.

O Paraguai de Santiago Peña caminha para se tornar um enclave de interesses externos e um laboratório de políticas ultraconservadoras que desprezam a vida humana em Gaza e a dignidade do próprio povo em casa. A democracia, quando desprovida de soberania e de justiça social, torna-se apenas um verniz para o autoritarismo de mercado.

O custo de se ajoelhar perante impérios e ignorar a fome do próprio povo é a perda da identidade nacional. O Paraguai não precisa de mais soldados estrangeiros; precisa de comida na mesa, educação de qualidade e respeito à sua língua e sua gente.

*Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.

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