FOZ DO IGUAÇU | PR – A trajetória de mulheres que contribuíram para a construção histórica, social e cultural de Foz do Iguaçu está documentada e preservada nos registros digitalizados do Museu da Imprensa. O acervo reúne memórias de personagens de diferentes épocas, revelando o papel fundamental de pioneiras que desbravaram espaços e atividades em períodos de conformação social muito distintos dos atuais.

Para acesso online no Museu da Imprensa, destaca-se o livro “Foz do Iguaçu: Retratos”, editado pelos jornalistas Chico de Alencar e Silvio Campana. A publicação, originalmente de 1997, é uma compilação de 23 diálogos com mulheres que, ao tecerem os fios da memória pessoal e familiar, revelam a própria evolução da comunidade iguaçuense na fronteira.

Memórias da fronteira: docência, comércio e Santos Dumont

As histórias resgatadas pelo museu trazem detalhes curiosos e fundamentais da vida cotidiana no século passado. Ilka Agripina Vera, por exemplo, iniciou sua trajetória na docência ensinando os filhos dos trabalhadores da construção da Usina São João, no Parque Nacional do Iguaçu, antes de se consolidar no magistério na Escola Bartolomeu Mitre, em 1947. “O principal segredo do sucesso do professor é cativar os alunos”, ensinava a pioneira.

Nina Moreira Andrion, que inicialmente evitava a transferência para Foz devido a lendas sobre a saúde na região, tornou-se figura central no comércio local. Ela alimentou operários da Estrada das Cataratas e da BR-277, além de realizar uma travessia fronteiriça peculiar: “Comprava produtos alimentícios na Argentina e vendia em Foz. Atravessava de barco, eu mesma remando”, relembrou.

Outro registro notável é o de Marieta Schinke, que além de narrar o vai e vem dos barcos pelos rios e a presença dos tenentistas na cidade, guardava uma memória singular: “Dancei uma valsa com Santos Dumont”, contou ela, referindo-se à visita do aviador à paróquia em 1916.

O livro Retratos, disponível para consulta digital, reúne as trajetórias de: Agnese Betio Giovenardi, Amanda Fritzen Holler, Conceição Ferreira Araújo, Crecencia Roth, Afra Roth, Djanira Rafaela, Elma Wandscheer, Elfrida Engel Nunes Rios, Érica Welter, Filomena Rafagnin, Helena Lacki, Ilka Agripina Vera, Irena Kosievitch, Letícia Pasa Leopoldino, Madalena Aquino Martins, Maria Inês Mazzacato Maran, Maria Odete Rolon, Marieta Schinke, Nina Moreira Andrion, Ottília Ignez Werner Friedrich, Ottília Schimmelpfeng, Rosália Dias e Rosa Cirilo de Castro.

Clique para acessar o livro Foz do Iguaçu: Retratos

A sensibilidade do olhar e o combate ao silenciamento

A fotojornalista Áurea Cunha, uma das profissionais responsáveis pela construção do Museu da Imprensa, ressalta que o projeto não apenas celebra conquistas, mas também serve para “lembrar daquelas que foram silenciadas e impedidas de fazer história”.

Durante suas pesquisas para o museu digital, Áurea deparou-se com um fato marcante: o feminicídio da adolescente Rejane Dal Bó, em 1977. Com apenas 16 anos, ela foi morta a tiros pelo ex-namorado. “Ontem, como hoje, a sociedade não pode fechar os olhos para o assassinato de mulheres, até que esse crime seja erradicado”, sublinha a pesquisadora.

Diversidade e gênero são temas centrais no trabalho de Áurea, autora da exposição “Todas as Cores do Mundo”. A mostra retratou 43 mulheres da região trinacional, de diferentes classes sociais e religiões, discutindo as invisibilidades da fronteira. A exposição itinerou por diversas cidades, incluindo o Fórum Social Mundial em Porto Alegre e Curitiba.

Serviço

Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu

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