*Editorial Fronteira Livre
No Brasil de 2025, a cada dois minutos, cinco mulheres são violentamente agredidas. O dado, embora frio em sua estatística, sangra na realidade de cada esquina. Ocupamos o 5º lugar em um ranking global de feminicídios, uma marca vergonhosa para uma nação que ainda tenta esconder o sangue debaixo do tapete com o velho ditado de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. No Fronteira Livre, afirmamos o contrário: onde há violência, a sociedade tem o dever de intervir.
A raiz do problema: O machismo como estrutura
A violência contra a mulher não nasce do nada. Ela é o estágio final de uma cultura patriarcal que ensina homens a serem “donos” de corpos e vontades. Quando ouvimos que “mulher apanha porque gosta”, testemunhamos uma crise de consciência social. Nenhuma mulher permanece no ciclo da violência por prazer. Elas ficam por medo, vergonha e falta de recursos. Elas ficam tentando sobreviver, protegendo seus filhos e esperando que o monstro que amaram um dia volte a ser humano.
Diferente do que o senso comum propaga, a agressão não escolhe CEP ou conta bancária. Ela invade mansões e favelas, ignora diplomas e religiões. É um fenômeno democrático em sua crueldade.
O ódio que se transforma em crime: Fé e posse
Os episódios recentes mostram as diversas faces dessa violência. Em Foz do Iguaçu, o ataque brutal contra duas mulheres muçulmanas em um shopping não foi apenas intolerância religiosa; foi um ataque ao corpo feminino. Ao arrancar o hijab de uma mulher, o agressor tentou despojá-la de sua identidade e dignidade. A misoginia aqui se vestiu de xenofobia.
Já no caso de Tainara, em São Paulo, vimos a face mais letal do machismo: o sentimento de posse disfarçado de ciúmes. Em novembro de 2025, ela foi arrastada por cerca de um quilômetro por um ex-namorado que não aceitava o fim da relação — uma materialização do horror. Douglas Alves da Silva não “perdeu o controle”. Homens que agridem mulheres sabem se controlar — eles não atacam seus patrões ou policiais. Eles escolhem suas vítimas com base na certeza da impunidade e na crença de que a mulher é um objeto sob sua propriedade. Tainara morreu na noite de 24 de dezembro, após quase um mês internada em estado grave.
60% dos feminicídios são motivados pelo sentimento de posse
Um levantamento do Tribunal de Justiça (MS) revela a face mais cruel do machismo estrutural: em 42% dos casos, o feminicídio ocorre porque o autor não aceita o fim do relacionamento. Somados aos 18% motivados por ciúmes, chegamos à marca de que 6 em cada 10 mortes de mulheres acontecem porque o agressor se sente “dono” da vítima.
Essa realidade é fruto de uma educação que, historicamente:
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Incentiva meninos à agressividade, à força física e à satisfação imediata de seus desejos e dominação.
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Condiciona meninas à passividade, à submissão e ao cuidado excessivo com o outro em detrimento de si mesmas.
O resultado dessa balança desequilibrada é a crença masculina de que ele possui o direito de “punir” ou “disciplinar” a mulher que ousa exercer sua autonomia e encerrar um ciclo.
A falácia do transtorno mental: O caso BBB 26
Um diagnóstico médico não produz misoginia. Recentemente, a situação de Pedro Espíndola no BBB 26 trouxe essa discussão à tona. Após cometer importunação sexual ao vivo — tentando agarrar o pescoço de uma participante e forçar um beijo —, as redes sociais foram inundadas por justificativas como “ele está em surto” ou “ele tem transtorno mental”.
Essa alegação, que também apareceu no caso de Foz, onde o agressor alegou uso de medicação controlada, não inocenta o autor. Pelo contrário: relacionar agressão à mulher a doenças mentais interrompe o processo de justiça e causa mais sofrimento às vítimas. É preciso parar de usar a saúde mental ou medicamentos fortes para justificar o machismo. O agressor sabe o que está fazendo; ele age assim porque acredita que não haverá consequências.
Desconstruindo os mitos da convivência
Precisamos enterrar as desculpas que legitimam o agressor:
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“Ele estava bêbado ou sob efeito de drogas”: o álcool pode ser um gatilho, mas não é a causa. Milhares de homens bebem e não agridem. A agressão vem da crença de superioridade, do desejo de dominar e ferir uma mulher. Isso é cultural.
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“Se era tão ruim, por que ela não saiu antes?”: o momento da separação é justamente quando ocorre a maioria dos feminicídios. O isolamento paralisante impede a reação.
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“É melhor pelo bem dos filhos”: crianças que crescem em lares violentos não são protegidas; elas são traumatizadas e tendem a reproduzir o ciclo no futuro.
O impacto público e o papel do estado
A pesquisa do DataSenado de 2025 traz um fio de esperança: a queda de agressões nos últimos 12 meses (de 7% para 4%). No entanto, o fato de quase metade das medidas protetivas serem descumpridas mostra que o sistema ainda falha em proteger quem denuncia.
Educação e enfrentamento
Para o Fronteira Livre, a punição é fundamental, mas o enfrentamento deve ser multidisciplinar. Precisamos de debate nas escolas, políticas públicas integradas e, acima de tudo, uma mudança na cultura do “não se envolver”.
A Lei Maria da Penha é clara: é dever da família, da sociedade e do poder público assegurar a dignidade da mulher. Quando você ouve um grito no vizinho e se cala, você está dando o aval para o próximo golpe. Que a nossa reflexão seja sobre a nossa responsabilidade. O machismo mata. O silêncio também.
Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.
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