*Editorial Fronteira Livre
A suspensão do processo de contratação para a dragagem do Rio Tapajós, no Pará, anunciada pelo governo federal nesta sexta-feira (6), não é um gesto de benevolência administrativa. É, acima de tudo, uma vitória tática arrancada na luta. É o resultado direto do levante dos povos Munduruku, Arapiun e Kayapó, que há semanas ocupam o terminal da multinacional Cargill e o aeroporto de Santarém para dizer o óbvio: os rios da Amazônia não estão à venda.
Entretanto, o recuo é parcial e estratégico. A nota oficial do Ministério de Portos e Aeroportos tenta camuflar a derrota política ao afirmar que a suspensão é uma “ação de rotina” e que não teria relação com os estudos de concessão da hidrovia. A verdade, denunciada pelas lideranças indígenas no chão da floresta, é que o coração do ataque permanece intacto: o Decreto nº 12.600/2025.
A hipocrisia da “Privatização Verde”
Assinado pelo presidente Lula em agosto de 2025, este decreto é o passaporte para a destruição. Ao colocar os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização (PND), o governo subordina a vida desses ecossistemas ao escoamento de commodities e aos lucros do agronegócio. Transforma as águas em “corredores logísticos”, ignorando que, para quem vive na região, o rio é farmácia, é mercado, é templo e é vida.
O governo tenta usar a COP30 como escudo, prometendo “consulta livre, prévia e informada”. Mas como aponta com precisão a liderança Alessandra Munduruku, a ordem dos fatores é um escárnio jurídico: o decreto foi assinado primeiro, a decisão foi tomada de cima para baixo. Onde está a consulta prévia se o destino do rio já foi carimbado nos gabinetes de Brasília para atender aos interesses de gigantes como a Cargill?
O avanço das hidrovias não trará desenvolvimento para os habitantes locais. O que se vê hoje é um Rio Tapajós já asfixiado pelo mercúrio do garimpo ilegal e contaminado pelos agrotóxicos que escorrem das plantações de soja. Aprofundar a dragagem e privatizar a gestão do rio é abrir caminho para intervenções ambientais irreversíveis que aprofundam a violação territorial.
Auricélia Arapiun foi categórica: a mobilização não vai recuar. O alvo não é apenas barrar uma máquina de dragagem, mas revogar integralmente o Decreto 12.600. A ocupação do aeroporto e do porto da Cargill demonstra que os povos originários cansaram de promessas vazias assinadas por ministros que, na prática, agem como facilitadores da expansão predatória do agronegócio.
Um chamado à solidariedade de classe
A luta pelo Tapajós não é apenas uma questão regional; é a fronteira final da resistência contra a mercantilização total da natureza. Não há “transição ecológica” justa se ela for construída sobre o soterramento das culturas indígenas e a privatização das águas.
É urgente que sindicatos, movimentos estudantis e organizações populares de todo o Brasil cerquem de solidariedade as ocupações em Santarém. O governo federal precisa entender que os povos da Amazônia não são obstáculos ao progresso, mas os verdadeiros guardiões de um futuro possível.
Pela revogação imediata do Decreto 12.600!
Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.