Curitiba, PR – Um curativo precisa proteger a lesão, permitir trocas gasosas e acompanhar os movimentos do corpo sem se romper. Para garantir essa maleabilidade, a indústria utiliza plastificantes sintéticos, mas uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) investiga a substituição desses componentes por extratos naturais de Aloe vera, a babosa, com foco na produção de curativos mais flexíveis e potencialmente eficazes no processo de cicatrização.
O estudo é conduzido por Fernando Miguel Stelmach Alves, estudante do terceiro ano de Farmácia da UFPR, no âmbito do projeto de iniciação científica “Desenvolvimento de filmes e hidrogéis para desordens cutâneas”, orientado pela professora Luana Mota Ferreira, do Centro de Estudos de Biofarmácia (CEB). Os resultados da primeira fase foram publicados em artigo científico que recebeu o 38º Prêmio Paranaense de Ciência e Tecnologia, concedido pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Seti), na categoria Estudante de Graduação.
A Aloe vera é composta por casca externa verde, uma seiva amarela potencialmente tóxica e um gel interno formado por água, aminoácidos, vitaminas, minerais, enzimas e polissacarídeos carboidratos complexos formados por longas cadeias de açúcares. Essas substâncias estão associadas a propriedades hidratantes, cicatrizantes e moduladoras do sistema imune, características que motivaram a investigação de seu uso também como componente estrutural de curativos.
O objetivo foi avaliar se os polissacarídeos do gel poderiam integrar o próprio material do curativo, substituindo plastificantes sintéticos. A proposta resultou no desenvolvimento de filmes finos, naturais e bioadesivos, capazes de proteger a ferida e contribuir para a cicatrização. “Materiais ricos em polissacarídeos se comportam como fios longos e flexíveis, capazes de se mover, se dobrar e reter água sem se romper”, explica Alves.
Na formulação, o extrato de babosa foi combinado com dois agentes amplamente utilizados pela indústria farmacêutica: a goma gelana, produzida por bactérias, e a carragena, extraída de algas vermelhas. Os filmes foram produzidos por método laboratorial em que os componentes são dissolvidos em água aquecida e depois secos até formar uma película contínua. O diferencial foi a incorporação do extrato não apenas como ativo cicatrizante, mas como parte da estrutura do material.
Resultados laboratoriais indicaram comportamentos distintos entre os materiais. Filmes à base de carragena apresentaram maior elasticidade e capacidade de absorção de líquidos, características relevantes para feridas com secreção. Já os filmes de goma gelana mostraram maior rigidez e resistência mecânica. Em ambos os casos, a presença do extrato de babosa melhorou a adesão à pele e favoreceu a manutenção de ambiente úmido, condição associada ao processo de cicatrização. “Os materiais naturais têm sido cada vez mais explorados no campo farmacêutico. Além disso, nossa formulação visa reduzir o número de componentes envolvidos na fabricação dos curativos”, afirma Ferreira.
Os próximos passos incluem testes de biocompatibilidade e avaliações em modelos in vivo, etapas necessárias para confirmar segurança e eficácia em condições mais próximas do uso real. A equipe também pretende investigar a incorporação de outros compostos terapêuticos às películas, buscando possíveis efeitos sinérgicos e ampliação das aplicações no cuidado de feridas.
Segundo os pesquisadores, um dos desafios no uso de ativos naturais é a complexidade das matrizes vegetais, que reúnem múltiplas substâncias com ação conjunta. “Nossa próxima missão é caracterizar fitoquimicamente esse extrato e dar um foco mais terapêutico para a formulação, com avaliações de performance in vitro e in vivo e determinar a permeação cutânea desses ativos”, diz Ferreira.
Alves está em sua terceira iniciação científica e teve o trabalho reconhecido em cerimônia realizada em 28 de novembro de 2025 pela Seti. O prêmio contempla iniciativas de pesquisa científica e tecnológica nas áreas de Ciências da Saúde e Ciências Exatas e da Terra, envolvendo instituições públicas e privadas de ensino superior e pesquisa, além de inventores independentes e jornalistas.
Para a orientadora, o reconhecimento está relacionado à combinação entre uso de ativos naturais biocompatíveis e técnicas de quimiometria, conjunto de métodos estatísticos aplicados à análise de grandes volumes de dados para compreender interações entre componentes de formulações. As ferramentas contribuem para previsibilidade e segurança no desenvolvimento dos materiais e ampliam a discussão sobre substâncias aplicadas diretamente na pele. “O Fernando, como um aluno de graduação, superou as expectativas. Um trabalho como esse é compatível com dissertações de mestrado e ele, mesmo em meio a disciplinas e poucos horários, executou com maestria”, afirma.
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