BRASÍLIA (DF) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não haverá privatização dos Correios enquanto estiver à frente do Palácio do Planalto. A declaração foi feita durante entrevista coletiva concedida nesta quarta-feira (18), em meio a rumores sobre a possível venda da estatal e à necessidade de aporte de recursos públicos para enfrentar a atual crise financeira da empresa.

“Enquanto eu for presidente, não tem privatização”, disse Lula, ao comentar o tema. Segundo ele, apesar das dificuldades enfrentadas pelos Correios, a solução não passa pela transferência da empresa ao setor privado.

O debate voltou à pauta após a deflagração de um movimento grevista por trabalhadores da estatal, motivado por preocupações com a situação financeira da empresa e pelo receio de retirada de direitos. A paralisação foi aprovada por funcionários de São Paulo e de outros estados, que alegam falta de negociação por parte da direção e risco de precarização das condições de trabalho.

Crise financeira e gestão

Durante a entrevista, Lula lamentou o momento vivido pelos Correios e comentou possíveis causas do prejuízo acumulado. O presidente descartou que os problemas estejam relacionados à chamada “taxa das blusinhas”, cobrada sobre encomendas internacionais, e indicou falhas administrativas como fator central.

“Não podemos ter uma empresa pública dando prejuízo. Não precisa ser a ‘rainha do lucro’, mas também não pode ser a ‘rainha do prejuízo’”, afirmou.

A estatal enfrenta um cenário financeiro delicado e demanda um socorro do Tesouro Nacional. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou nesta semana que chegou à pasta uma proposta de empréstimo para os Correios, que está em análise pelo Tesouro e pode alcançar cerca de R$ 12 bilhões.

Privatização em debate

A discussão sobre a privatização dos Correios se arrasta há anos e voltou a ganhar força recentemente em setores do mercado financeiro e em editoriais da grande imprensa. Em texto recente, a Folha de S.Paulo afirmou que “a solução para os Correios é privatizar ou fechar”, argumento que ignora, segundo críticos, o papel estratégico e social da empresa.

Em artigo publicado recentemente, o jornalista e analista político Marcos Verlaine destacou que os Correios extrapolam a lógica estritamente comercial. “Os Correios não são apenas uma empresa: são infraestrutura de Estado, tão estratégica quanto energia ou transporte”, escreveu.

Atualmente, a estatal mantém mais de 10,5 mil agências espalhadas pelos 5.570 municípios brasileiros, garantindo serviços logísticos em regiões onde empresas privadas não atuam por falta de rentabilidade.

Função social e desafios

Apesar dos prejuízos registrados, associados principalmente a passivos trabalhistas e ao congelamento tarifário de serviços de baixo custo, os Correios seguem como uma das maiores operadoras logísticas da América Latina, processando milhões de encomendas diariamente e atendendo áreas remotas do país.

A avaliação do governo é que a preservação dessa função social deve caminhar junto com a modernização da gestão. Essa missão foi atribuída à nova diretoria da empresa e à ministra Esther Dweck, da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.

Para Lula, a saída possível, neste momento, é fortalecer a empresa pública, melhorar sua eficiência e evitar a privatização de um serviço considerado estratégico para a integração nacional.