*Por Victor Evangelista Santos

Em um contexto social no qual a educação pública tem sido sistematicamente atacada e precarizada, emergem — quase em uma dinâmica newtoniana — formas de resistência que se colocam como enfrentamento direto às políticas de negligência educacional. No cenário iguaçuense, essa realidade se manifesta de forma contundente.

O município figura entre os mais impactados por políticas de privatização das escolas públicas, como o programa Parceiros da Escola; pelo esvaziamento do currículo do Ensino Médio; pela precarização da Educação de Jovens e Adultos (EJA); pela digitalização acrítica do ensino; e pela militarização cívico-militar das instituições escolares. Em conjunto, tais processos produzem uma educação que não emancipa, mas conforma sujeitos desesperançados e destituídos de perspectivas de futuro.

É justamente em contextos como esse que a resistência se torna não apenas necessária, mas urgente. Em meio a um cenário marcado por retrocessos educacionais, surge, em 2025, um projeto social voltado a auxiliar, instrumentalizar e conscientizar estudantes das periferias, preparando-os(as) para o acesso às Instituições de Ensino Superior (IES). Assim nasce o Cursinho Popular Carlos Marighella, localizado na região norte de Foz do Iguaçu, mais especificamente na Vila C Velha, com atuação no Colégio Estadual Flávio Warken — um dos últimos espaços de resistência estudantil e escolar da cidade.

Idealizado por voluntários(as) de diferentes áreas do conhecimento, entre licenciaturas e bacharelados, oriundos de diversas regiões do Brasil e da América Latina — como São Paulo, Rio Grande do Sul e Colômbia —, o projeto tem como eixo central a defesa do direito à educação pública, gratuita e de qualidade. Mais do que preparar para provas, o cursinho reafirma a educação como ferramenta de transformação social e de produção de esperança para as juventudes periféricas do Oeste paranaense.

Enquanto iniciativa voluntária, sem fins lucrativos e de caráter genuinamente popular — sem apoio financeiro ou institucional, à exceção do respaldo da direção do Colégio Flávio Warken —, o Cursinho Popular Carlos Marighella encerrou, em 2025, seu primeiro ano de atividades atendendo cerca de 50 educandos(as). As aulas ocorreram de segunda a sexta-feira, das 19h às 22h, com uma proposta pedagógica crítica voltada ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ao vestibular da Unioeste, possibilitando que jovens historicamente excluídos dos espaços universitários pudessem disputar, em condições mais justas, vagas que lhes são constitucionalmente garantidas.

Projeto na Vila C Velha, em Foz do Iguaçu, enfrenta o desmonte do ensino público e amplia horizontes. Foto: Arquivo Pessoal

No encerramento das atividades, realizado na última segunda-feira (08/12), os relatos dos(as) estudantes evidenciaram o impacto concreto do projeto em suas trajetórias: “Sou extremamente grato ao curso e à sua qualidade de ensino. Se não fosse pelo cursinho, eu nem saberia o que estudar. Com o Novo Ensino Médio, metade do conteúdo que preciso para passar nos vestibulares não é ensinada. Minha nota no Enem só passou de 500 graças aos ensinamentos de vocês.”

Outra educanda destacou: “Fiz o Cursinho Popular Carlos Marighella e foi uma experiência muito importante. Os professores eram comunicativos e sempre ajudavam nas dúvidas. Aprendi conteúdos que, na escola, eu tinha dificuldade de entender, como Química. O cursinho realmente fez diferença, principalmente para quem não tem condições de pagar por uma educação de qualidade.”

Projetos como o Cursinho Popular Carlos Marighella cumprem um papel fundamental em Foz do Iguaçu — papel que deveria ser assumido pelo Estado. Para além da preparação técnica para exames, reafirmam o direito à educação como prática de emancipação e demonstram que, mesmo em contextos de profundo sucateamento do ensino público, é possível construir alternativas coletivas.

Não por acaso, grande parte dos(as) voluntários(as) do projeto são, eles(as) próprios(as), egressos(as) de cursinhos populares, o que reforça a dimensão de continuidade histórica e de compromisso social dessa iniciativa.

O Cursinho Popular Carlos Marighella seguirá ativo em 2026, ampliando sua atuação e reafirmando seu compromisso com as juventudes periféricas de Foz do Iguaçu. Interessados(as) em participar como estudantes ou voluntários(as) podem acompanhar informações sobre inscrições e atividades pelas redes sociais do projeto (@cursopop.cmfoz) ou pelo e-mail (cursinhopopularcarlosmarighell@gmail.com).

Em tempos de retrocesso, iniciativas como essa demonstram que a educação popular segue viva, organizada e em movimento.

Iniciativa voluntária enfrenta o esvaziamento curricular e amplia o acesso ao ensino superior. Foto: Arquivo Pessoal