Brasília–DF – A Comissão de Anistia reconheceu, nesta terça-feira (2), o ex-jogador José Reinaldo de Lima, o Reinaldo, ídolo do Atlético Mineiro e uma das vozes mais expressivas do futebol brasileiro em defesa da democracia, como vítima de perseguição política durante a ditadura civil-militar (1964–1985). A decisão, unânime, concede a ele reparação simbólica e financeira em prestação única de R$ 100 mil, acompanhada de pedido oficial de desculpas do Estado brasileiro.

Reinaldo não foi apenas um dos maiores atacantes da história do futebol nacional — sua trajetória esportiva esteve profundamente entrelaçada com sua postura política pública, marcada por posicionamento democrático, críticas ao regime e gestos simbólicos que contrariavam a narrativa oficial da ditadura.

Gesto político e resistência pública

O atacante ficou conhecido por comemorar gols com o punho cerrado, símbolo associado aos Panteras Negras e, no contexto brasileiro, interpretado como sinal de resistência à repressão. Ao mesmo tempo, Reinaldo concedia entrevistas defendendo a redemocratização, a liberdade e o direito à participação política — posições consideradas subversivas pelo Sistema Nacional de Informações (SNI).

Essa postura pública resultou em vigilância constante pelos órgãos de espionagem da ditadura.

Na representação enviada à Comissão de Anistia, Reinaldo relata ter sido alvo de monitoramento sistemático, além de campanhas de desmoralização que afetaram sua carreira e sua vida pessoal. Ele afirma que sofreu pressões diretas no ambiente esportivo e perseguições que buscavam silenciar sua atuação política.

“Queriam calar a minha voz, diminuir a minha força. Acabaram com a minha carreira. Essa violência do Estado, que destrói reputações, é tão grave quanto outras formas de repressão”, afirmou na Sessão de Turma.

Repressão além dos porões

Ao resgatar sua trajetória, Reinaldo destacou que a violência da ditadura não se restringiu ao aparato físico e militar, mas incluiu mecanismos de controle ideológico, propaganda difamatória e coerção institucional voltados a atingir figuras públicas que destoavam da ordem imposta.

Seu caso reforça como o regime atuou também nos meios culturais, esportivos e sociais — espaços onde vozes dissidentes tinham grande alcance simbólico.

Reconhecimento institucional e dimensão histórica

A conselheira Rita Maria de Miranda Sipahi apresentou o voto reconhecendo que a perseguição política foi determinante no desfecho da carreira do jogador. A presidente do colegiado, Ana Maria Lima de Oliveira, destacou o impacto social do caso e o papel de figuras públicas que se posicionaram em defesa da democracia em momentos de alta repressão.

A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, enfatizou a relevância histórica do reconhecimento:

“Reinaldo é parte da memória de resistência do Brasil. Sua coragem demonstra que o esporte também foi um espaço de enfrentamento à ditadura.”

Comissão de Anistia

Criada pela Lei nº 10.559/2002, a Comissão é responsável por analisar violações cometidas entre 1946 e 1988, incluindo a perseguição de artistas, atletas, professores, trabalhadores e militantes atingidos pelo regime militar.