Curitiba–PR – A Assembleia Legislativa do Paraná promoveu na manhã desta terça-feira (25) uma audiência pública dedicada ao enfrentamento da violência contra a mulher, reforçando ações preventivas, atendimentos e políticas integradas em todo o estado. Organizado pela deputada Cantora Mara Lima (Republicanos), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, o encontro reuniu especialistas, autoridades, representantes de instituições e mulheres que conseguiram romper ciclos de violência.

A audiência marcou o Dia Internacional de Eliminação da Violência Contra a Mulher, celebrado nesta data, e trouxe dados alarmantes: entre janeiro e outubro, a Central Ligue 180 recebeu 126.455 denúncias, média de 417 casos por dia, segundo o Ministério das Mulheres. Em 66% dos casos, a denúncia foi feita pela própria vítima.

Para a deputada Mara Lima, o silêncio social ainda é uma das barreiras mais graves.
“A violência contra a mulher virou uma pandemia mundial. Apesar de tantas conquistas, ainda não conseguimos impedir que matem nossas mulheres. Muitas vezes por motivos banais e, pior, na presença de crianças e familiares. Silenciar também é uma forma de violência”, afirmou.

Legislação, prevenção e desafios

O deputado Professor Lemos (PT) destacou o papel da Assembleia no avanço de legislações estaduais voltadas ao enfrentamento da violência de gênero, como a implementação da Lei Maria da Penha pela Polícia Militar e a aprovação do programa Maria da Penha Vai à Escola.

A desembargadora Cristiane Tereza Willy, coordenadora da CEVID no Tribunal de Justiça do Paraná, lembrou que a violência contra a mulher tem raízes históricas profundas, mas que o Judiciário tem atuado em duas frentes: punição e reeducação de agressores.
“Hoje, a penalização também tem caráter educativo. Os grupos reflexivos ajudam a reconstruir valores e desconstruir estereótipos que alimentam o machismo”, explicou.

Ela destacou ainda a necessidade de ações educativas permanentes voltadas aos jovens e orientou sobre canais de denúncia disponíveis no estado, incluindo a Casa da Mulher Paranaense, delegacias comuns no interior, além do Programa Luna da Defensoria Pública.

Um problema que afeta toda a sociedade

A diretora de Políticas Públicas para as Mulheres da SEMIPI, Mariana de Sousa Machado Neris, reforçou que a violência de gênero não afeta apenas a vítima.
“Quando uma mulher sofre violência, toda a comunidade sofre. Isso impacta filhos, famílias, ambiente de trabalho e o cotidiano. A eliminação da violência precisa ser compromisso coletivo: Executivo, Legislativo, Judiciário e sociedade”, avaliou.

Relato de sobrevivência encerra audiência

A audiência foi concluída com o depoimento da ex-jogadora e atual treinadora de vôlei Daniela Leal dos Santos, que viveu 17 anos em um relacionamento marcado por agressões físicas e psicológicas.
“Não é normal sofrer nenhum tipo de violência. Eu digo às mulheres: é possível recomeçar. Parece que estamos aprisionadas, cegas. Um dia eu despertei — e foi quando minha família decidiu ‘meter a colher’”, relatou.

Ela destacou a importância do acesso à informação, ao apoio institucional e aos canais de denúncia.
“Ligar para o 180 mudou minha vida. A medida protetiva funciona, os órgãos públicos ajudam. É um passo por vez, mas é real: existe uma vida do lado de fora”, concluiu.

A audiência contou ainda com a presença da promotora Ticiane Louise Santana Pereira (MPPR), da guarda municipal Gislaine Aparecida Seneiko Szumski, de Paula Feitosa (Unidade de Acolhimento), e do coronel Dalton Gean Perovano (Sesp).