João Pessoa, PB – A brasileira Daniela Marys de Oliveira, de 35 anos, está presa há sete meses no Camboja, país do Sudeste Asiático, sob acusação de tráfico de drogas. Segundo denúncia da mãe, Myriam Marys, que vive em João Pessoa, a filha foi vítima de tráfico humano após aceitar uma proposta de emprego em telemarketing que se revelou fraudulenta.
Daniela será julgada no próximo dia 23 de outubro, e a família afirma não ter recebido resposta efetiva do Itamaraty desde o início do mês, apesar das reiteradas tentativas de contato.
Viagem motivada por promessa de trabalho
Natural de Minas Gerais e formada em Arquitetura, Daniela havia se mudado temporariamente para a capital paraibana, onde buscava retomar a carreira profissional. Entre janeiro e fevereiro deste ano, enviou diversos currículos pela internet e, sem encontrar oportunidades no Brasil, recebeu uma oferta de trabalho temporário no Camboja, com contrato de até um ano.
Apesar da desconfiança inicial, Myriam apoiou a decisão da filha, com a condição de manter contato diário por vídeos e mensagens. Nos primeiros dias, Daniela enviou imagens do alojamento, o que aumentou a preocupação da mãe. “O lugar era isolado, cheio de beliches, e disseram que esperavam mais pessoas para começar o trabalho. Achei tudo muito estranho desde o começo”, contou Myriam.
Mensagens suspeitas e golpe financeiro
Em fevereiro, mãe e filha ainda trocavam mensagens frequentes, mas no início de março a comunicação mudou de tom. “Recebi uma mensagem dizendo: ‘Oi, mãe, estou muito triste’. Daniela nunca me chama assim. Foi aí que desconfiei”, lembrou Myriam.
Pouco depois, golpistas assumiram o controle do celular e do notebook da brasileira, enviando mensagens à família e pedindo dinheiro para quitar uma suposta multa contratual de US$ 4 mil (R$ 27 mil). Acreditando se tratar de um pedido legítimo, a mãe fez a transferência, mas perdeu o contato com a filha logo em seguida.
Prisão e acusações de tráfico
Dias depois, Myriam recebeu uma ligação inesperada de Daniela. A filha afirmou que havia sido presa por tráfico de drogas, acusada de esconder três cápsulas de entorpecentes no banheiro da casa onde vivia. Segundo o relato, a prisão ocorreu após ela se recusar a participar de um esquema de golpes virtuais operado por estrangeiros. “Ela me ligou do telefone de um policial dizendo que estava presa. Implorou por um teste toxicológico, mas nunca deixaram. Disse que colocaram as drogas lá para incriminá-la”, relatou a mãe.
Desde então, Daniela está detida em uma cela superlotada, com cerca de 90 mulheres, e já adoeceu devido às condições precárias do local.
Família cobra atuação do Itamaraty
A mãe afirma que tem encaminhado documentos e pedidos de assistência consular ao Ministério das Relações Exteriores, mas recebe apenas respostas padronizadas. “A resposta é sempre a mesma: ‘Estamos acompanhando o caso’. Mas ninguém faz nada. Minha filha está doente, sozinha e injustiçada”, desabafou Myriam.
Até o momento, o Itamaraty não se manifestou oficialmente. Segundo o protocolo consular, o ministério pode acompanhar brasileiros presos no exterior e intermediar o contato com autoridades locais, mas não interfere diretamente nas decisões judiciais dos países anfitriões.
Tráfico humano no Sudeste Asiático
Casos como o de Daniela têm se tornado cada vez mais comuns em países como Camboja, Laos e Mianmar, onde redes criminosas internacionais recrutam trabalhadores estrangeiros com falsas promessas de emprego. As vítimas têm os passaportes confiscados, são submetidas a jornadas abusivas e, em alguns casos, envolvidas em atividades ilegais, como golpes virtuais e tráfico de drogas.
Organizações internacionais, como a ONU e a Human Rights Watch, alertam que o tráfico humano na região configura uma nova forma de escravidão moderna, que combina exploração laboral, fraude e privação de liberdade.