Foz do Iguaçu, PR – O celular, símbolo da vida moderna e ferramenta indispensável de comunicação e trabalho, tornou-se também um dos maiores gatilhos de ansiedade do século XXI. O termo “nomofobia”, derivado da expressão inglesa no mobile phobia (“fobia de ficar sem celular”), descreve o medo irracional e o desconforto intenso quando a pessoa está sem o aparelho — seja por falta de bateria, sinal ou acesso à internet.
O conceito surgiu em 2008 em um estudo dos Correios do Reino Unido e vem sendo amplamente estudado por psiquiatras e psicólogos. Hoje, é reconhecido como um transtorno comportamental associado à dependência tecnológica, com sintomas comparáveis aos de outros vícios modernos.
Quando o prazer se torna dependência
Segundo a psiquiatra Julia Khoury, do Hospital das Clínicas da UFMG, o uso do celular estimula o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, o hormônio do prazer. “As recompensas digitais são instantâneas: você posta algo e logo recebe curtidas, mensagens ou notificações. Isso cria um ciclo de reforço que o cérebro passa a desejar o tempo todo”, explica a médica.
Esse ciclo contínuo de estímulos altera a percepção de prazer. Atividades simples — ler um livro, caminhar ou conversar, podem parecer menos interessantes em comparação com a excitação rápida das interações virtuais.
A especialista destaca que a nomofobia aparece raramente isolada. Em geral, está associada a ansiedade, depressão, transtorno bipolar ou déficit de atenção, o que agrava o quadro clínico e torna o tratamento mais complexo.
Sinais de alerta: quando o uso deixa de ser normal
Entre os principais sintomas da nomofobia, estão:
- checar o celular a todo momento, mesmo sem notificações.
- sensação de “vibrações fantasmas”.
- irritação ou angústia ao esquecer o aparelho em casa.
- dificuldade de concentração em tarefas simples.
- uso do celular em situações perigosas, como ao dirigir.
- perda da noção de tempo em redes sociais.
Em casos extremos, a ausência do celular pode provocar tremores, sudorese e taquicardia — reações semelhantes às observadas em crises de abstinência de substâncias químicas.
Crianças e adolescentes: a geração mais vulnerável
Os efeitos da dependência digital são ainda mais intensos entre as crianças e adolescentes, cujo cérebro está em formação. Conforme a Dra. Julia, o uso precoce e excessivo de telas pode comprometer o desenvolvimento da empatia, da paciência e da capacidade de concentração.
“O celular oferece gratificação imediata. Isso dificulta o aprendizado da espera e da convivência. Crianças muito expostas às telas tendem a ser mais impulsivas e irritadiças”, explica.
A professora Kátia Ethiénne Esteves dos Santos, da PUC-PR, ressalta que o uso indiscriminado de celulares afeta o desempenho escolar e o convívio social. “Há um isolamento crescente entre estudantes que preferem o contato virtual às relações presenciais. A consequência é a queda na atenção, no rendimento e nas habilidades socioemocionais”, observa.
A resposta das escolas: entre a proibição e o uso consciente
Em resposta ao avanço da nomofobia entre jovens, foi sancionada no Brasil a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas públicas e privadas de educação básica.
O objetivo é criar ambientes de aprendizagem mais equilibrados e menos dependentes da tecnologia.
A professora Kátia, contudo, defende uma abordagem intermediária: “Proibir totalmente pode não ser o caminho mais eficaz. É preciso integrar o celular de forma pedagógica, com propósito educativo e limites claros. A educação digital deve ensinar o uso consciente, não apenas punir o uso indevido.”
Como identificar e tratar a nomofobia
O diagnóstico é feito por meio de avaliação clínica e entrevistas psicológicas. Quando o comportamento afeta a rotina, o sono ou os relacionamentos, é sinal de alerta.
O tratamento inclui terapia cognitivo-comportamental para reorganizar hábitos, identificar gatilhos e reduzir o tempo de exposição. Em casos mais severos, medicação pode ser necessária para tratar ansiedade e impulsividade. “O primeiro passo é reconhecer o problema”, diz a dra. Julia. “Depois, é essencial estabelecer limites. Existem aplicativos que bloqueiam o acesso após determinado tempo de uso ou deixam a tela em preto e branco, o que reduz o estímulo visual e o vício.”
Outras medidas recomendadas incluem:
- definir horários fixos para checar mensagens.
- criar “zonas livres de tecnologia” em casa, como o quarto e a mesa de jantar.
- evitar o uso do celular antes de dormir.
- incentivar atividades presenciais, leitura e práticas ao ar livre.
- “Pais e educadores precisam dar o exemplo. Não adianta proibir as telas das crianças se os adultos permanecem o tempo todo conectados”, reforça a psiquiatra.
Um desafio coletivo
Mais do que uma questão individual, a nomofobia expõe um dilema social e tecnológico: como equilibrar a conectividade com o bem-estar? A dependência digital, agora reconhecida como um problema de saúde pública em vários países, desafia governos, escolas e famílias a repensarem o papel das telas na vida cotidiana.
Enquanto a tecnologia avança, especialistas insistem que o verdadeiro progresso será aprender a desconectar, nem que seja por alguns minutos ao dia.