Foz do Iguaçu, PR – A Terra ultrapassou sete dos nove limites planetários que definem as condições seguras para a vida humana e a estabilidade do planeta. O dado faz parte do relatório “Planetary Health Check 2025”, publicado pelo Instituto Potsdam de Pesquisa Climática, na Alemanha, um dos centros científicos mais respeitados do mundo.

A novidade mais alarmante é que a acidificação dos oceanos entrou oficialmente na zona de risco — um marco inédito desde que o sistema de monitoramento foi criado, em 2009. O fenômeno ocorre quando os mares absorvem dióxido de carbono (CO₂) em excesso, reduzindo o pH da água e alterando processos vitais para a fauna marinha, a regulação do clima e a produção de oxigênio.

“Os oceanos estão se tornando mais ácidos, o oxigênio está diminuindo e as ondas de calor marinho estão aumentando”, explicou o pesquisador Levke Caesar, um dos autores do estudo. “Essa combinação coloca em risco o sistema que estabiliza o clima do planeta.”

Oceanos em colapso silencioso

Desde o início da era industrial, a acidez dos oceanos aumentou entre 30% e 40%, provocando efeitos em cadeia sobre os ecossistemas marinhos. Pequenos moluscos — base alimentar de inúmeras espécies, já sofrem erosão em suas conchas, um sinal de desequilíbrio que pode afetar toda a cadeia alimentar.

A oceanógrafa Sylvia Earle, referência mundial em estudos marinhos, comparou o cenário a um alerta vermelho: “O oceano é o sistema de suporte de vida da Terra. Sem oceano saudável, não há planeta saudável. A acidificação é uma luz vermelha piscando no painel da estabilidade terrestre.”

O que são os limites planetários

O conceito dos “limites planetários” foi criado em 2009 por cientistas do Instituto Potsdam para medir o quanto as atividades humanas pressionam os sistemas que mantêm o planeta habitável.

São nove parâmetros, que incluem:

Segundo o novo levantamento, apenas dois desses limites permanecem dentro da zona segura: a camada de ozônio e a poluição atmosférica, justamente os únicos que já passaram por políticas globais de controle com resultados positivos, como o Protocolo de Montreal, que restringiu substâncias que destroem o ozônio.

A fronteira do desequilíbrio

Para o diretor do Instituto Potsdam, Johan Rockström, a mensagem do relatório é direta: a humanidade está saindo da “zona de segurança planetária”. “Estamos testemunhando um declínio generalizado da saúde do planeta. A boa notícia é que ainda há tempo para reverter a trajetória. Falhar não é inevitável; é uma escolha”, afirmou.

Entre os sete limites já ultrapassados, os mais críticos são as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, o desmatamento e os ciclos alterados de nitrogênio e fósforo — todos diretamente relacionados à expansão agrícola, queima de combustíveis fósseis e urbanização acelerada.

A inclusão da acidificação dos oceanos como o sétimo limite comprometido representa, segundo os cientistas, um risco sistêmico: os mares, que funcionam como reguladores climáticos e grandes reservatórios de carbono, podem deixar de cumprir esse papel, acelerando o aquecimento global.

Brasil e a urgência local

O Brasil, com mais de 7 mil quilômetros de costa e o maior reservatório de água doce do planeta, é diretamente afetado pelo processo de desequilíbrio global.
Pesquisadores brasileiros já alertam que a elevação do pH nos oceanos Atlântico e Pacífico Sul tem efeitos sobre a pesca, os recifes e a economia costeira.

Além disso, o desmatamento da Amazônia e do Cerrado, associado à emissão de gases de efeito estufa, contribui para o colapso dos sistemas de regulação climática e de chuvas na América do Sul — um impacto que reforça o alerta do relatório.

Entre o alerta e a ação

O relatório não é apenas um diagnóstico: ele aponta caminhos. A redução drástica do uso de combustíveis fósseis, a recuperação de florestas nativas e a transformação do modelo de produção agrícola são medidas urgentes para restaurar o equilíbrio ambiental.

Os cientistas destacam, contudo, que as soluções exigem cooperação global e mudanças estruturais, não apenas ações pontuais. “A regeneração da camada de ozônio e a redução da poluição do ar mostram que é possível mudar o rumo”, escreveu Rockström. “Mas a janela da cura está se fechando rapidamente.”